sexta-feira, janeiro 22, 2016

ENVELHECER É FENOMENAL

Outro dia lendo umas dessas muitas publicações no facebook, vi um post compartilhado que falava sobre envelhecer.
Me peguei pensando sobre esse assunto.
Não que eu me veja uma velha, porque a velhice a que me refiro não é cronológica mas mental, e nesse aspecto, apesar do meu humor rabugento, me considero jovem. 
Mas quando se entra no famoso "enta", a sua visão de mundo despenca um pouco, junto com a pele do braço e as maçãs do rosto. Eu me preocupava demais com o que as outras pessoas iam pensar a meu respeito, isso sempre me incomodou um bocado. Eu tenho um certo ar aristocrático que beira a postura de uma esnobe, coisa que não sou. Mas nasci assim, e se como dizem a primeira impressão é a que conta, as minhas sempre foram péssimas. Demora e denota um tantinho de esforço para que a outra pessoa me conheça e aí diga "nossa Val você é tão bacana, te achava tão fresca.."

Sempre me perguntei:"fresca por quê?" Por que será que passo essa impressão para as pessoas? Não trato ninguém mal, sou sempre simpática com todo mundo, o que acontece? Daí percebi, depois de perguntar pra quem me achava fresca e pulou depois para o sensacional, que o problema é meu "ar esnobe".
Como alguém nasce assim? Bom, eu nasci. Se eu fosse milionária, estaria plenamente justificado, mas não é o caso. 
Minha finada avó dizia que se eu vestisse um vestido de chita (o pano mais barato que existe) ainda assim ficaria chique. Olha só que coisa eu herdei sabe-se lá de quem.
Mas voltando a questão da idade, isso me incomodava antes e eu fazia um esforço enorme pra agradar as pessoas, tentar mostrar que eu também era da turma, sabe como é? Isso desgasta.

Agora que estou beirando os cinquenta, isso diminuiu consideravelmente. Acho que ninguém tem que fazer esforço para agradar ninguém. Nós somos como somos oras bolas, imperfeitos, mas dignos do respeito civilizado do outro. Ou seja, me acha fresca, tudo bem, direito seu, mas não espere que eu seja toda sorrisos para garantir sua consideração. Se você não for uma pessoa presunçosa, coisa muito pior que esnobe, não vai sair por aí presumindo que detém os segredos do cosmo, e portanto não vai me julgar sem antes me conhecer de fato. E sendo assim, vai perceber que pessoa incrível eu sou. De verdade. Porque só alguém incrível não sai por aí apontando dedos para o universo determinando quem é digno ou não de atenção. E isso eu nunca fiz.
Mas tudo isso vai perdendo importância conforme a idade chega. 

Você se preocupa mais com o que realmente importa, sua família por exemplo. Pessoas que estarão ao seu lado aconteça o que acontecer. Esteja você com ou sem dinheiro, descabelada, deprimida, vestindo um vestido de chita ou não. No final, são essas pessoas que contam. O restante é passageiro.
Amigos chegam e vão embora, alguns permanecem por mais tempo, mas vivem suas vidas, têm outros amigos, outras prioridades. Mas família fica para sempre. E preste bem atenção, não me refiro a laços de sangue, porque um estranho pode se tornar sua família de uma maneira totalmente inesperada. Família é algo que se constrói com pessoas importantes e que não são destruídas por nada ou ninguém. Isso é muito raro. Eu tenho isso com meus filhos. Passamos por muitas situações juntos e nada nos desuniu. Isso é mais forte que o sangue que nos une. 

Quando você é jovem quer ter o máximo possível de amigos. O padeiro da esquina você chama de amigo, o cara que te vendeu algumas coisas com um sorriso estampado na cara vira teu amigo. Quanto mais melhor.
Isso é sinônimo de popularidade e do quanto você é uma pessoa bacana.
Com a idade você percebe que isso é pura idiotice de gente amadora. Ninguém tem um milhão de amigos.
Seja grata se lhe sobrar algum depois dos "enta". 
Soa meio pessimista meu discurso esculachado sobre amizades, mas alguém precisa falar a verdade a esse respeito, e a idade é maravilhosa nesse sentido, porque você perde o medo de dizer o que pensa. 

Quando eu era pequena tinha um ditado que dizia "amigo é dinheiro no bolso". Todo mundo que já atingiu uma certa maturidade sobre a vida, sabe que esse ditado tem lá suas razões. Hoje em dia principalmente.
Então envelhecer é manter-se jovem em suas convicções, suas crenças, seus pensamentos. É abrir-se para um novo horizonte sem nenhuma amarra ou dogma pré concebido. É ter a coragem de ser fiel ao que acredita ser importante, e reaprender a amar. O amor dos jovens é muito limitado. O amor dos "enta" abrange muitas e infinitas possibilidades. Um abraço, um olhar afetivo, andar de mãos dadas, tudo isso é puro amor.

Sim, sua bunda vai despencar consideravelmente, e isso é uma tristeza. Você vai evitar dar tchauzinhos com os bracinhos levantados, porque haverá uma pelanca sobrando por ali também. Se tiver bom senso, usará maiôs em vez de biquinis (muito mais elegantes), mas isso não é o fim do mundo. Ainda terá pernas de arrasar, e terá a liberdade de se vestir como bem entender, já que tendência é coisa pra gente jovem de miolo mole. Você não é datada, por que se vestir assim? 
Enfim, se prepare para a melhor fase da sua vida.
Envelhecer é fenomenal.
Mas e o sono encurtado, as dores nas juntas, a rabugisse, os cabelos brancos, os remédios para isso e para aquilo? 
Quem disse que os "enta" é a melhor idade mentiu. É péssimo. Sua memória vira o bloquinho da cabeceira por exemplo. 
Mas então o que sobra de fenomenal?
A sua liberdade.
Ela compensa todas as outras coisas.
Você finalmente é um ser livre.
E não há bunda empinada ou cabelo branco que retire sua propriedade intelectual. Mesmo que você recorra aos bloquinhos para se lembrar de uma coisa ou outra, sua dignidade está garantida.
E isso, bem, isso não tem preço.
Nem idade.

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