sexta-feira, novembro 27, 2015

MEU ANO

Então você se pega pensando na vida.
Tudo anda tão corrido, e o fim de ano está bem aí, na nossa porta. Dá pra acreditar, o natal já mostra sua carinha nos enfeites em todos os lugares.  Inacreditável não é mesmo?
Pois é, e aí vai chegando aquele momento de reflexão, em que eu me pego pensando no que fiz com o meu ano. Será que eu construí algo importante ou relevante?
Eu sei que essas reflexões costumam acontecer no ano novo, mas eu como bipolar que sou, tenho a ansiedade por nome do meio, e já antecipo para antes do natal esses pensamentos.

Não sei vocês, mas eu sou uma pessoa que não faz grandes planos para o ano que se inicia. Eu nunca faço muitos planos,  na verdade deixo a vida acontecer. Claro que pequenas coisas são pensadas, mas planejamentos grandes nunca fiz na vida. Acho que assim me frustro menos, não crio muita expectativa nas coisas, o que já faço com certa frequência. Mas gosto da sensação que dá dizer " este ano consegui realizar tais coisas", sabe como é? Te deixa com a certeza de que algo de útil foi feito com a sua vida, que é uma preciosidade. Pelo menos penso assim.

Então, refletindo sobre esse ano fiquei orgulhosa e triste ao mesmo tempo.
Fiquei orgulhosa porque finalmente retomei meus estudos, o que eu protelei por muuuito tempo. Isso foi um grande avanço pra mim, voltar a estudar. Fiquei nervosa no começo, porque já não sou uma garota (no sentido jovem da palavra), e sabia que teria que lidar e conviver com uma geração mais nova, mas para minha surpresa isso não fez a menor diferença. Foi muito bom, e passou tão rápido que eu pensei " puxa, podia ter começado antes!". E podia mesmo, mas o importante é que comecei, e um ano já se foi.
Também fiquei orgulhosa por ter conquistado um trabalho incrível num dos melhores hospitais do país, e consegui sozinha. Me senti especial quando coloquei meu crachá do Hospital Israelita Albert Einstein no peito. Me senti fazendo parte de um lugar aonde eu sempre quis estar, e pensei que seria assim por muito tempo. Fiz amigos, e acreditei nos valores da instituição.
Aí vem a parte triste dessa história.
Alguém que não devia ter nada de importante para fazer, me viu no consultório e achou que meu cabelo ruivo chamava muito a atenção.
Esse alguém era um médico e exigiu que eu mudasse a cor dos cabelos.
Falando assim, parece até coisa de filme, ficção científica, sei lá. Mas aconteceu comigo, eu já estava contratada, trabalhando e exigiram que eu mudasse a cor dos cabelos.

Veja bem, meu cabelo é um ruivo natural, não é vermelho, rosa, laranja ou tampouco todas essas cores juntas. É um cabelo normal.
E eu não podia aceitar uma imposição dessas.
Chegaram ao absurdo de me fazer passar pela "avaliação" de três pessoas diferentes, que pegavam na mecha do meu cabelo e ficavam analisando. Parecia que eu estava em um capítulo de Dr.Who, aquela série maluca da BBC. Me senti uma viajante do tempo aterrissando num planeta hostil chamado Einstein.
E aí, como não mudei a cor recebi um "passar bem, obrigado".
Fiquei muito triste.
Como pode haver tamanha intolerância nas pessoas? Minhas qualificações de nada serviam com um cabelo ruivo. Se eu fosse loira ou morena, tudo bem, ruiva não.
Ficar desempregado não me pertence.
Nem lembro quando fiquei sem trabalhar, então foi desgastante demais esse processo, e ainda está sendo para ser bem sincera.

Tentei tirar alguma lição sobre o que aconteceu, mas ainda dói ter conseguido algo que eu queria tanto e ter perdido por uma imbecilidade tão grande.
Devia ter me rendido e mudado a cor dos cabelos? Eu não conseguiria viver assim, sob uma imposição. Mas ficar desempregada num país que atravessa uma crise sem precedentes, também não é fácil.
Este ano também finalmente dei entrada no meu pedido de divórcio, já estou separada legalmente há 10 anos, mas o fulano nunca deu as caras e dificultou a minha vida. Mas consegui na Vara de Família dar entrada no processo, o que demorou dois meses para acontecer. São tantas mulheres com pedidos de pensão alimentícia, pedido de guarda de filho, separação, muita gente mesmo, e aí o processo todo demora.
Quando você vai num lugar desses, percebe como a vida das mulheres é difícil. As histórias são muito parecidas: marido foi embora e não quer pagar pensão, marido foi embora, já está com outra e não quer comparecer para a separação...
Tudo muito igual.
Pensão alimentícia é um recorde, homem nenhum quer pagar. Meu ex por exemplo, já foi até preso e nem por isso pagou. Uma vez ouvi uma mulher dizendo que " homem quando se separa fica solteiro novamente, mulher tem filho e casa para sustentar", e é verdade.
Nós mulheres ainda sofremos muito nesse país. Ainda bem que muitas estão conscientes de seus direitos e não se deixam mais enganar.

E finalizando meu ano, processei a empresa aonde trabalhei por 6 anos e ajudei a construir.
Fiz parte da implementação do projeto, comecei quando nem computadores existiam, criei referências, padronizei e quando fiquei doente me trataram com total desprezo.
Nunca processei empresa nenhuma, mas essa merecia.
Um orgão pertencente ao Estado que referencia saúde e não reconhece sua responsabilidade na doença de seus funcionários, tem que ser processada.
Já contei no blog sobre a minha bipolaridade, mas eu passei mais de 40 anos sem apresentar nenhum sintoma. O estresse do trabalho foi o gatilho para a minha doença, e agora vou passar o resto da minha vida tendo que conviver com medicamentos. Isso não é correto.
Processar uma empresa é algo muito cansativo, porque você tem que rever pessoas que te deixaram doente na audiência, passar por perícia médica, contar e recontar sua história várias vezes...
Já passei pela perícia, portanto ainda tenho o restante do caminho para seguir, e pode até ser que eu perca, porque comprovar doença mental não é algo fácil. Se eu tivesse quebrado a perna trabalhando seria algo físico, ou se fosse o caso de não terem pago horas trabalhadas idem, mas o emocional fica a critério do observador, no caso o perito. E eu já passei por perícias no INSS em que nem olharam na minha cara.
Então é bastante complicado.

Mas acho que fiz bastante coisa nesse ano, mesmo tendo algumas experiências ruins.
E de qualquer forma, sua vida não termina porque gira a folhinha do calendário, isso é mera rotina instituída.
Podia contar dos livros que li, das músicas novas que me foram apresentadas, dos filmes que assisti, mas são detalhes do dia a dia.
Acho que o mais importante que me aconteceu esse ano foi perceber como minha família é meu suporte total.
Eles me apoiaram em todas as minhas decisões, em todos os meus momentos difíceis, me incentivaram, me deram força quando eu fraquejava, enfim, fizeram toda a diferença.
Meu amor Carlos que tanto ama e cuida dos meus filhos há quase 7 anos como se fossem seus, meu companheiro de viagens malucas, meu melhor amigo, meu chão, me dando todo apoio foi fundamental na minha vida este ano. Além dos meus filhos sempre maravilhosos, que só me enchem de orgulho, e sempre me trazem um livro diferente para eu ler, me mostram o mundo por uma ótica nova cheia de otimismo e compreensão.
A isso nada se compara.
Por isso sou grata a tudo o que me aconteceu, porque se eu perdi de um lado, ganhei por outro e assim é a vida, cheia de impermeabilidade, ganhos e perdas.

Muitas outras coisas ainda podem acontecer até o ano novo e o calendário girar, mas por hora estou feliz por ter reconhecido quanta beleza há na minha vida e o quanto sou grata por ela.
Descobri que sou uma pessoa que, prefere sentir tudo, a não sentir nada.
Mesmo que doa.
Mesmo que eu entre em contato com emoções que nem eu sabia que tinha, porque no final, isso só vai me mostrar que estou viva. Continuo aqui.
Decididamente não sou um quadro em branco.
Prefiro ser Picasso ou Frida.
Quero um céu que muda de cor, quero um coração pulsando.

coracao

arte do Aitch

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