sábado, outubro 31, 2015

E VIDA QUE SEGUE...

Nada é tão legal que não possa ficar melhor ainda.
O mesmo serve para aquele nosso pensamento otimista "pior que está não pode ficar", porque na realidade a gente sempre sabe que pode.
Mas de uma maneira geral, tenho experimentado esses dois sentimentos com frequência ultimamente.
Tenho fome de muitas coisas: conseguir escrever com mais frequência e coisas mais relevantes(mas enfim, o que é revelante para um, pode não ser para outro), ler mais livros, terminar minhas séries, voltar a correr, me alimentar melhor, me graduar em psicologia e fazer a pós de um ano em psicobiologia, viajar mais...
Tem tanta coisa que eu quero fazer que não sei se minha idade cronológica vai ser suficiente para cumpri-las.

Ao mesmo tempo, também gostaria de deixar de tomar meus medicamentos e garantir minha sanidade num nível saudável, e eu sei que falando assim, se você chegou agora, vai imaginar que quem escreve aqui desse lado tem algum transtorno mental grave. Bom, na verdade, essa pessoa(que sou eu mesma), de fato tem. Sou bipolar tipo II, e tomo estabilizadores de humor, mas essa questão nunca afetou muito a minha vida, exceto que por conta dela, eu tinha muita insônia e trabalhava muito, mas muito mesmo, umas 20 horas por dia, e ainda assim, não conseguia dormir.
Nunca fui uma suicida ou coisa do gênero, minha problemática é pensar e fazer mil coisas ao mesmo tempo, o que não é saudável pra ninguém. Por conta disso, o botão de "pare!" foi acionado e entrei em colapso, precisei de ajuda médica e medicamentos. Entendeu? No demais, sou igual a todo mundo. Preciso apenas ficar atenta aos chamados "gatilhos", coisas que desencadeiam situações de muito estresse ou de ansiedade gritantes em mim. Meus altos e baixos são um pouco diferentes da maioria das pessoas, mas tenho muito senso crítico, e isso me salva sempre.


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Aonde quero chegar -  Quando eu disse que as coisas podem ficar piores do que já estão, ou ainda mais legais, falo do nosso dia a dia. Nada é definitivo nessa vida.
Eu acordei de um jeito um dia e fui dormir com um diagnóstico no outro.
Fui dormir bem numa noite e acordei para usar o banheiro, sofri um desmaio e fraturei a coluna cervical em C5 e C6, fui salva pelo box que impediu que a queda causasse danos a minha medula.
Tinha um trabalho que ajudei a desenvolver e amava de paixão, me dedicava à exaustão, salvava vidas, fiquei doente e  fui despedida quando descobriram meu diagnóstico.
Aí quando achei que já tinha ficado ruim o bastante, fui convidada a trabalhar no Hospital Israelita Albert Einstein e fui delicadamente convidada a mudar a cor do meu cabelo(que é ruivo), porque deduziram que eu chamaria demais a atenção dos pacientes. Não sei que nome você dá para isso, mas eu chamo de assédio moral.

Enfim, não cedi.
Não porque acho que meu cabelo é a última bolacha do pacote, mas por uma questão de identidade.
Meu cabelo é ruivo e eu sou assim. Não vou me transformar em algo que não sou eu para agradar a uma mente doentia e atrasada. Não vou ser refém de uma instituição que capacita as pessoas pela cor de seus cabelos. Ainda que eu entenda que determinas coisas são restritas a determinados lugares, ter um cabelo ruivo definitivamente não é uma delas.
Por isso fico bastante chateada quando as pessoas definem racismo como sendo algo exclusivista, não é. Sou branca e já sofri racismo, inclusive na infância, quando me apelidaram de "branquela azeda".
E para completar sou judia, portanto a questão do racismo é muito bem definida para mim.

Mas como eu disse, tudo sempre pode melhorar, e eu voltei a estudar, a sonhar com a graduação e com a pós, porque tenho um projeto para o Einstein(sim, ele continua na minha vida), e pretendo fazer a Psicobiologia lá, porque meu projeto é voltado para pacientes e familiares de doenças terminais. E se houve algo bom que aprendi com meu diagnóstico, é que a mente humana é realmente incrível. Conheci pessoas com vários transtornos mentais, esquizofrênicos por exemplo, e são inteligentíssimos, capazes de realizar grandes coisas, só precisam do tratamento correto e de alguém que acredite em sua potencialidade. Passei a me interessar por esse mundo quando o meu mundo parecia restrito a um diagnóstico.

Hoje eu sou perfeitamente capaz de admirar a inteligência e a capacidade de outra pessoa, sem questionar minhas limitações.
Confesso que é muito difícil pra mim, afinal, sempre fui a pessoa a quem todos apelavam quando tinham um problema sem solução, ou aquela que dedicava horas a fio até conseguir resolver algo. Hoje, paro e respiro. Se deu certo ótimo, fico feliz. Se não deu, tento entender que talvez precise aceitar que nem sempre vou conseguir ganhar todas as batalhas. E quando me esqueço de alguma coisa, tento não me cobrar demais, principalmente porque sei que a perda de memória é uma sequela da minha doença.
Vou ter que conviver com isso.
Mas sim, há dias muito bons, e outros até fantásticos, em que consigo acordar bem, leio meus livros e não esqueço de nenhum detalhe importante, assisto meus filmes, não troco o nome dos meus filhos, me alimento bem, e até me lembro das minhas orações.
Já há outros nem tão bons, mas para esses eu optei em não dar muita atenção. É mais fácil viver assim.
A vida é uma grande aventura, não é mesmo?

lettering-bird




“Admire a beleza de outra pessoa sem questionar a sua própria” 
Ilustrações de Jaqueline Diedam

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