terça-feira, setembro 08, 2015

SAUDADES..

Tive uma infância privilegiada, com direito a subir em árvores, pular amarelinha na rua, andar de bicicleta, nadar em ribeirão e banhos de mar em dias lindos de sol com praia deserta.
Meus filhos não cresceram assim, mas sempre demos o nosso jeitinho e, graças a chácara da minha irmã, puderam conhecer patos, galinhas, pés de limão e sentir o vento no rosto num balanço preso na árvore.Em uma de nossas idas a São Tomé das Letras(nosso cantinho preferido, aonde tivemos a alegria de fazer amigos) levamos nossa filha Gaby e assim ela pôde sentir a gostosura de nadar em um rio, subir montanha, sentir a fúria e a beleza incomparável de uma cachoeira e a vista verde a perder de vista.No fim da viagem já perguntava ” quando a gente vai voltar??”, e desse modo foi apresentada a uma senhora chamada saudade.
Sinto saudade de um tantão de coisas da minha infância.
Eu gosto muito mais do mato que da praia, mas passei mais de uma década lá, apesar de ter nascido bem distante dela.
Quando lá cheguei ainda tinha muitas sardas no nariz, usava chiquinhas presas por elásticos brancos, o corpo de uma magricela e absolutamente nenhuma preocupação com coisa alguma.A vida era muito fácil.
O primeiro apartamento aonde moramos ficava em uma rua que terminava na avenida da praia e de lá saí com um bicho preguiça, uma bicicleta – presentes do meu pai – e muitas cintadas – “presentes” da minha mãe para as minhas peraltices – e tanto o bicho preguiça quanto as cintadas ainda não eram proibidos de divulgação e distribuição.
Da janela da sala do segundo apartamento eu podia ver o mar e a linha que parecia indicar o seu fim. Lá fui apresentada aos livros e ” peguei emprestado” vários da biblioteca da cidade e, percebi que esse negócio de livro emprestado não era pra minha pessoa,  passei a comprá-los, para a felicidade de todas as bibliotecas e seus acervos.
Debaixo daquele teto vi meu pai construir vários brinquedos e banquinhos, e ouvi muitas de suas estórias de assombração também – tudinho mentira – mas meu pai quando juntava com meu tio Onofre ou meu tio Mário pra contar “causos” fazia até o mais incrédulo acreditar.
Debaixo daquele teto comi bolos e beijinhos deliciosos preparados pela minha irmã para cada aniversário que eu fazia.Semfalta!E comi peixes frescos comprados na beira da praia pela minha mãe.Lá vi meus sobrinhos crescerem e brinquei na praia com todos eles.
Fiz amizades, desfiz e não beijei ninguém! Também acordei em muitas manhãs com meu pai me levando um copo de café com leite e pão com margarina na cama. Meu pai era esse tipo de pessoa, e brincava de corrida nas escadas do prédio aonde morávamos como se tivesse a mesma idade que eu tinha.
Saí de lá com uma bicicleta Caloi, uma enciclopédia, uma vitrola e um pai doente.E disso não sinto nenhuma saudade…
Mas a vida é feita de muitas moradas e de muitas histórias.Aqui em São Paulo estou escrevendo outra a bastante tempo e espero pelo dia em que possa me mudar para outro teto que seja definitivamente o meu.
Neste dia contarei que debaixo deste teto chamado Sampa pelos íntimos, perdi meu pai, meu irmão e vi minha mãe sofrer um bocado.Mas também tive meus filhos, meus gatos, meus livros, minha independência e encontrei o amor da minha vida.
Mas esta história fica pra outro dia…

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