terça-feira, setembro 29, 2015

QUANDO O SER HUMANO É APENAS UM SER.

Onde diabos foi parar minha dignidade?
Você pode achar que estou apimentando um pouco mais minha já conhecida insanidade, mas a verdade é que as vezes eu realmente acho que a perdi.
Provavelmente em algum processo seletivo, certamente numa entrevista com o selecionador que olhou meio desconfiado para meus cabelos ruivos, e eu, mesmo sabendo da minha reprovação certa, insisti em continuar com aquilo tudo.
As pessoas, que se auto intitulam seres humanos, estão cada vez mais distantes do que propõe o significado das palavras.
O mundo está cada vez mais racista, xenofóbico, preconceituoso e intolerante em todas as escalas.
Não é preciso ler ou assistir aos jornais, basta ir pras ruas.
Eu mesmo sendo branca, fui vítima de intolerância por ter os cabelos ruivos. Ou mudava a cor dos cabelos ou perdia o emprego. Para mim, era uma questão de manter a minha identidade. Perdi o emprego.
Veja, não estou falando de um cabelo fluorescente ou vermelho tomate, ou verde, azul, amarelo. Estou falando de um cabelo ruivo.
Consideraram que para um hospital de elite, meu cabelo não era adequado.
Comecei a perceber que a minha idade também não é mais adequada para algumas vagas. E eu ainda não tenho 50 anos. Imagine quando tiver.
Resolvi voltar a estudar.
Na minha sala há um angolano chamado Francisco.
Ele tem dificuldade em entender e falar nossa língua, suas notas são regularmente baixas, mas ninguém enxerga as dificuldades do Francisco. Na verdade, pouco falam com ele.
Ontem ele estava cabisbaixo, resolvi perguntar se era por conta das notas. Não, sua mãe que ainda mora em Angola está com câncer de mama, e há poucos recursos para tratá-la. Ele já não sabe se continuará os estudos ou se voltará para tomar conta da mãe.
Dentre todos os meus colegas de classe, Francisco foi o único que se preocupou com o caminho que eu fazia para voltar para casa. " É muito escuro, perigoso" disse ele. E se propôs a fazer um novo percurso comigo todas as noites, por ruas mais iluminadas e com transeuntes.
Francisco, o angolano que tira notas baixas, mal fala português e tem uma mãe com câncer, encontrou tempo para observar e se preocupar com meu caminho de volta para casa.
Ninguém gosta de imigrantes.
Em uma discussão na sala de aula, um dos rapazes bombados por sua academia, não teve o menor pudor em dizer que " bolivianos e angolanos tiram o trabalho dos brasileiros". Será que ele não percebeu que tinha um colega de classe angolano?
Na verdade isso não fez nenhuma diferença, ele só expressou o que o mundo atual pensa sobre o processo de imigração. O mundo é um caldeirão pulsante de xenofobia.
As pessoas olham para minhas tatuagens e me rotulam de alguma coisa. Qualquer coisa.
E isso é tão perceptível.
Nesses dias de calor, preciso usar blusas de manga longa nas entrevistas, porque o psicólogo tendencioso jamais irá contratar uma pessoa tatuada em seus refinados processos.
Li uma crônica deliciosa de Rubem Alves em que ele cita alguns nomes da literatura geniais que também jamais seriam aprovados em processos seletivos conduzidos por esse tipo de psicólogo. Isso me traz um certo acalento.
Há dias em que você perde totalmente a fé na humanidade e ainda se pergunta " que humanidade?".
E há pessoas como Francisco, que nos lembram que ainda resta esperança.
Esperança de que ruivos, negros, tatuados, pobres, desempregados, imigrantes, gays e outros tantos, sejam vistos como pessoas e não como estatísticas.
Esperança de que o olhar do outro seja mais imparcial e que  ele faça jus ao que denominamos ser humano.



Você pode gostar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...