quinta-feira, agosto 27, 2015

UM POUCO DIFERENTE

Meu mundo definitivamente não é igual ao seu.
Não que precisem ou necessariamente devam ser iguais, mas definitivamente não é.
No meu mundo vejo pessoas que você provavelmente faz questão de ignorar, como os esquizofrênicos por exemplo. Já eu convivo com estas pessoas em todas as minhas consultas psiquiátricas. Elas compõe minha semana quando tenho terapia.
Os chamados "loucos" habitam meu mundo.
Além disso, no meu mundo há dias alternados loucamente por doses saltitantes de pura adrenalina, dias em que acredito poder conquistar o mundo, e dentro da minha irracionalidade posso me arriscar em situações que não são saudáveis para mim. E outros tantos dias em que simplesmente desisto de tudo, me entrego a um sentimento de impotência inexplicável e uma dor dilacerante, rastejo entre as horas e sou capaz de desejar a morte.
Claro que há dias equilibrados, mas no meu mundo eles são conquistados arduamente por medicamentos controlados e tratamento continuado.
No meu mundo eu preciso mentir para ser aceita socialmente, afinal quem quer conviver com alguém diagnosticado com algum tipo de transtorno mental?
E no meu mundo aprendi que as aparências realmente enganam.
Eu que o diga.
Sou branca, cabelos ruivos, magra, me visto de maneira considerada elegante, sou prolixa, bonita até eu diria. Sou naturalmente engraçada, e as pessoas gostam de mim.
Ninguém jamais desconfia do quão inquieta é a minha mente. Das minhas noites insones, dos meus descontroles emocionais, da minha relutância em ser medicada, dos meus desmaios - fruto de tentativas frustradas com determinados medicamentos - das minhas dores e da minha relutância em aceitar um diagnóstico que é eterno.
Uma coisa é você ser diagnosticado com alguma doença e saber que existe um processo de tratamento com início, meio e fim. Ou possibilidade de cura ao menos.
Outra coisa é você ser diagnosticado e saber que dependerá de medicamentos para o resto da sua vida, que sua doença não tem cura e que ainda existem sequelas. Uma das piores no meu caso, é a perda gradual da memória.
Certa vez ao me queixar sobre isso com minha médica, ouvi que tenho 60% de chance de desenvolver alzheimer. Isso pra mim é bastante coisa.
Percebe como meu mundo é definitivamente diferente do seu?
Mas mesmo assim, eu me esforço todos os dias para torná-lo menos desigual.
Consigo admirar um pôr do sol nas montanhas e reconhecer a beleza que existe neste mundo. Consigo rir de mim mesma, e impôr esperança na minha vida.
Sou capaz de identificar gentilezas e ser grata por ter tanto amor em volta de mim.
Saber que se é amado e aceito, com todas as vicissitudes que isso implica, é sem dúvida privilégio para poucos.
Portanto, mesmo estando em mundos diferentes, podemos uni-los pelo amor.
E não é esse o grande desafio de cada ser humano?




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