domingo, agosto 16, 2015

POR FAVOR, MANTENHA-SE CALADO. E DE PREFERÊNCIA MINTA.

Pessoas são eternamente incógnitas a serem decifradas, isto se você tiver saco e interesse.
Minha bipolaridade, controlada, por vezes faz com que eu perca o controle de algumas situações. Como por exemplo quando sua terapeuta, que acaba sendo sua tábua de salvação em momentos difíceis, te diz coisas óbvias e que sua colega de trabalho ou qualquer livro de auto ajuda poderia fazer melhor.
Isso me irrita.
Já não tenho semanas fáceis, ultimamente estão mais complicadas ainda por conta do trabalho novo, não sou boa em socializar e me tornei o centro das atenções na bendita instituição por conta da cor ruiva do meu cabelo. Esta situação de me expôr a vários cargos de chefia pedindo inicialmente que eu mudasse o tom do meu cabelo, e depois sutilmente que eu seria realocada por conta disso, me irritou demais.
Um bipolar irritado não significa necessariamente explosões impulsivas e descontroladas, mas a entrada por um caminho que não gostamos de trilhar: o da depressão.
Para que essa depressão se instale, são necessários "gatilhos", ou motivos focados. Muitas vezes não significam nada para a maioria das pessoas, mas para nós pode ser o fim do mundo. Uma exposição desnecessária como a que aconteceu comigo por exemplo, foi o gatilho para pegar esse caminho.
E a volta dele não é fácil.
Não há remédios a ser incorporados, já tenho um kit pré estabelecido, mas pra piorar a situação, o antidepressivo que foi receitado não está disponível em lugar nenhum.
Minha mente trava.
Não consigo aprender com a mesma facilidade.
E tenho uma necessidade absurda de saber e dominar qualquer atividade que eu desenvolva.
Minha percepção das coisas é algo absurdo.
Consigo captar situações e emoções que outras pessoas não notam.
Não vejo a vida em preto e branco, tudo tem cores pra mim.
Questiono muito e o tempo todo.
Inclusive a mim mesma.
Leio muito e fico frustrada por não ter uma profissão que me permita exercer livremente o campo das ideias.
Enfim, o que me incomoda na vida é ter a necessidade de adaptação às pessoas ditas normais.
Percorrer esse caminho, sem adentrar em nenhuma estrada perigosa que me leve a depressão, é um desafio diário.
Acho que as pessoas deveriam ler mais a respeito das doenças mentais e, além de respeitar, também se livrarem da ignorância e estigma que cercam pessoas como nós.
Uma pessoa sem voz é um ser humano sem alma.
E os bipolares, assim como qualquer pessoa que tenha algum tipo de transtorno mental, precisa sempre se omitir a esse respeito, ou não conseguirá trabalho em lugar nenhum.
Minhas consultas precisam ser em horários arranjados e já perdi várias por conta disso, meu tratamento precisa ser escondido, assim como qualquer efeito colateral que possa sofrer.
Vivemos uma vida paralela e escondida.
Mentimos para sermos aceitos numa sociedade omissa e ignorante.
E quem faz tratamento no SUS como é o meu caso, sofre mais ainda, uma vez que as consultas não podem ser remarcadas. Se não compareceu no dia agendado entendem como desistência e aí é contar com a humanidade de algum funcionário para entender seu caso e reagendar. O que nem sempre acontece. Sim, porque até quem trabalha atendendo pessoas com transtornos mentais, não estão necessariamente aptas para fazê-lo.
E isso é só uma pequena parte do nosso complexo universo...
Escrevo para ter voz, para me mostrar ativa e para deixar claro e explícito minha indignação com o mundo que me cerca.
Um mundo cada vez mais mesquinho, egoísta e fechado em si mesmo.
Um mundo que não sabe abraçar diferenças.
Sejam elas culturais, sociais, políticas, religiosas, raciais ou mentais.
Um mundo exclusivista.


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