domingo, agosto 09, 2015

INDIGNAÇÃO E PEQUENAS LOUCURAS

Quando eu era pequena, meus primeiros escritos eram poesias.
Eu adorava criar rimas.
Culpa de Drummond, meu primeiro contato literário.
Depois passei a ler outros poetas que não usavam necessariamente a rima, mas que mesmo assim falavam ao coração.
Decidi escrever crônicas.
E aqui estou eu.
Minhas crônicas são sempre escritas na primeira pessoa porque narram acontecimentos da minha vida, meus sentimentos, minhas saudades e meus sonhos.
Tenho muitos sonhos, e não vejo minha idade ou meu diagnóstico como impeditivo para realizá-los. Preciso de disciplina, porque não tenho disciplina para começar alguma coisa e ir até o fim. Sempre mudo de ideia no meio do caminho. Culpa de uma mente muito acelerada.
Esses dias têm sido muito difíceis para mim.
Estou sendo discriminada no trabalho porque tenho o cabelo ruivo.
Eu sei que parece absurdo, e realmente o é, mas está acontecendo comigo. Já me pediram para escurecer o cabelo, ou até mudar a cor, caso contrário serei realocada, não poderei atender pacientes externos. Ou seja, ter contato direto com as pessoas.
Preconceito não acontece somente com pessoas negras, pode acontecer com qualquer pessoa, e mesmo sendo branca, estou vivenciando isso na pele.
Indo para o trabalho vi uma cena que marcou bastante.
Próximo ao Shopping Iguatemi, meu lotação parou no farol.
Pela janela, olhei e vi um mendigo com olhos de louco (e sei reconhecer um olho de louco porque já convivi com muitos), se olhava numa vitrine espelhada. Seu olhar era de espanto.
Ele ficou parado se olhando no espelho de baixo a cima, como que não acreditando no que era refletido.
Fiquei impactada.
Ninguém reparou no mendigo louco que se olhava no espelho. Eu reparei.
No que ele estaria pensando? Estarei tendo um momento de lucidez e se perguntando como acabou naquela situação?
Eu não sei.
Mas de repente me vi naquele homem.
Esse gatilho, no caso a discriminação com a cor do meu cabelo, e esse mendigo, acabaram desencadeando um processo de recaída na doença.
Fiquei muito fragilidade, e ainda estou na verdade.
Voltei para a terapia.
Muita coisa para processar.
Não vou mudar a cor do meu cabelo. Fui contratada assim.
E isso tudo acontecendo num dos maiores hospitais da América Latina.
Muito conservadorismo imaginar que a cor do cabelo de alguém vai impactar mais que o atendimento recebido pela equipe médica para o seu tratamento.
Devem me achar muito linda.
Enfim, essa crônica saiu como um desabafo, mas é o momento que estou vivendo.
Espero que os poucos leitores que tenho compreendam.
Outros momentos hão de vir.
Espero que melhores...

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