domingo, julho 26, 2015

INADEQUAÇÃO

O sentimento de inadequação é uma particularidade da minha personalidade.
Sentir-se não fazendo parte do mundo, este em que vivemos todos os dias, me acompanha a muito tempo. Não é algo que se escolhe, é algo que te acomete.
Quando eu era criança, brincava com frequência sozinha, criava mundos imaginários e transitava neles com fluidez. Lembro que já gostava de programas que ninguém da minha idade sabia existir. E isso porque só haviam uns 4 canais disponíveis na tv. Também me lembro que tinha uma amiguinha que era rica, e era definida assim porque tinha um quarto só para ela, comia geleia de morango (que custava caro), tinha muitas bonecas Susi, telefone em casa e uma tv colorida. Essa minha amiga chamava Rosana e minhas brincadeiras não eram muito interessantes pra ela, que preferia exibir sua coleção de bonecas com roupinhas variadas a brincar de mulher biônica e sair imitando corridas robóticas e falas em inglês pelas ruas.
Na verdade acho que só eu assistia Cyborg, e A mulher biônica. Meus coleguinhas nem sabiam o que era isso.
Meu pai me comprou uma enciclopédia e eu decidi que queria ser arqueóloga. Mas que raios era um arqueólogo? Ninguém acompanhava meus pensamentos.
Mais tarde li Drummond e decidi que queria ser escritora, carregava um caderninho debaixo do braço e nele escrevia pequenos poemas rimados. Mas ninguém da minha idade lia Drummond.
E assim fui crescendo, na contramão do que era esperado.
Apesar de ter desenvolvido algumas técnicas para deambular entre as pessoas e parecer normal, por vezes perco o compasso.
Vejo um grupo de pessoas e não consigo achar graça das piadas em que todos riem com uma obviedade irritante. Não costumo partilhar de seus assuntos e acho a maioria muito banal.
Não me acho o supra sumo de coisa alguma, só prefiro a companhia dos livros e filmes a das pessoas.
Por que é tão difícil encontrar alguém com alguma capacidade de raciocínio humano que vá além do último capítulo da novela, ou de piadas pífias?
Claro que tenho minhas deficiências, principalmente tecnológicas, minha vocação sempre foi o campo das ideias, e sofro muito com minhas limitações. Procuro compensá-las com minha empatia, uma característica que me permite entender as dores dos outros, dores físicas e seus sentimentos agonizantes.
Me identifico muito com os loucos.
Acho que são vanguardistas incompreendidos.
E de alguma forma, vejo a mim mesma como uma louca, pois habito um universo paralelo desde a infância e apenas transito nesse mundo dito comum.
Minha percepção sobre as pessoas é bastante apurada, afinal de contas passei minha vida observando seus comportamentos para me ajustar as situações. E isso me ajuda muito.
Assim como Rubem Alves, acho o mundo muito bonito e me abstenho de todas as politicagens, sejam relevantes ou não. Mas não sou indiferente as injustiças.
Na minha maneira de enxergar a vida, o amor é plural, o que contradiz minha opção monogâmica. Mas minha opção não muda minha maneira de abarcar o amor.
Espero que meus escritos, que são minha maneira de permanecer neste mundo, tenham eco, e que de alguma maneira, alcance outros inadequados como eu.
Ou algum vanguardista.
Quem sabe...




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