sábado, março 02, 2013

SOBRE ESPELHOS E LIQUIDIFICADORES

Quem trabalha em qualquer área da saúde, em algum momento vai encarar um louco.
Quando me refiro ao nome louco, o uso por ser uma expressão curriqueira, o que evidentemente não o torna científico, só usual. Na realidade, tendemos a classificar como louco qualquer pessoa diferente de nós, ou que tenha um pouco mais de coragem que nós.
Eu trabalho na saúde há tanto tempo que nem me lembro mais quando comecei. Fazia o papel de educadora social em algumas favelas de São Paulo, com uns vinte anos mais ou menos, orientando famílias e principalmente adolescentes nas questões de DST,  acompanhando casos iniciais de pacientes  HIV positivo e realizando encaminhamentos, orientando prostitutas quanto a necessidade do uso da camisinha e exames constantes, enfim, era um trabalho que exigia envolvimento e distanciamento ao mesmo tempo.
Sempre aparecia uma pessoa da comunidade dizendo e se comportando de forma estranha. Afrontava os educadores, xingava a coordenação, jogava os pratos de comida servida nos Centros de Convivência no chão e dizia que a prefeitura os servia com esmolas para fins políticos, causava constrangimentos e era posto pra fora do local pela guarda civil metropolitana que garantia nossa proteção na favela. Era sempre conhecido por louco, mas era de fato muito corajoso.
Quando me descobri bipolar, também descobri que se trata de algo biológico e não psicológico como muitos imaginam. E por conta disso fui encaminhada à locais que tratam corretamente pessoas com patologias iguais e muito piores que a minha.Os CAPS são Centro de Atenção Psicosocial, e para lá fui direcionada a fim de uma triagem, apoio, medicamentos adequados, encaminhamentos - nem todos permanecem tratando-se no CAPS - e dar condições para que cada paciente siga sua vida.
Se eu disser que foi natural, estarei contando a maior mentira da minha vida. Foi chocante.
Eu negava minha necessidade de medicação constante, negava a bipolaridade, negava que aquele lugar era pra mim, enfim negava tudo.
É muito paralisante entrar em uma casa (o CAPS no meu caso é uma casa) e ver pessoas com maneirismos esquisitos, falando sozinhas, com risadas estranhas, semblante cerrado e olhar desconfiado para todo canto, outras mostrando revistas evangélicas e apontando personagens dizendo "este aqui sou eu, mas não conta pra ninguém!", ou com roupas absurdas, como uma mulher que usava blusas de lã e touca quando o termômetro devia marcar uns 34ºgraus lá fora.
Minha primeira reação foi pensar " o que estou fazendo aqui???" e não fugi de lá porque eu precisava desesperadamnente falar com um estranho sobre a dor que eu estava sentindo no peito. Tanto faz se eu passaria na triagem, se seria ou não encaminhada, eu só precisava desabafar com um estranho. Queria poupar minha família. Estava exaurida de ser forte o tempo todo.
E assim aconteceu e ainda acontece.
O CAPS foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida, clinicamente falando. Nunca fui julgada. Na verdade, mesmo no começo, quando eu só escrevia  e permanecia muda nas sessões, por desconfiança total na capacidade das pessoas em entenderem meus sentimentos tão obtusos, fui acolhida.
Minha psiquiatra foi incisiva quanto ao uso dos medicamentos e exames, mas jamais grosseira. Me acompanha quanto aos efeitos dos remédios (ainda em experimentação), e me ensinou que além dos remédios, precisarei da psicanálise por muito tempo. Esclareceu que a bipolaridade têm tipos e que sou tipo 2, que acomete pessoas muito intelectuais e excessivamente ativas (o que não traz nenhum glamour a doença). As pessoas que me atendem são muito queridas, e me sinto em casa quando estou lá.
Vou terminar citando uma passagem do livro " Uma mente inquieta" que retrata perfeitamente meu sentimento que, somente hoje, entendo, me aterrorizavam tanto naquelas pessoas. Não era um estranhamento, mas um reconhecimento.
" Ainda pior que o terror, porém, eram as expressões de dor nos olhos das mulheres. Alguma parte de mim procurava institivamente alcançá-las e, de um modo indefinível, compreendia essa dor, sem jamais imaginar que um dia eu olharia no espelho e veria sua tristeza e insanidade nos meus próprios olhos."






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