sexta-feira, fevereiro 15, 2013

O DIA QUE VI UM PRETO VELHO

Ontem vi um homem que por instantes, de modo absolutamente real, me lembrou a figura de um Preto Velho.
Para quem não conhece, Pretos Velhos são entidades da umbanda que morreram no tronco ou de velhice, tornaram-se purificados por seus atos grandiosos e ascenderam. Apesar de todo seu sofrimento e da rudeza da época, carregavam muita sabedoria e humildade, trazendo conforto e demonstrando fé nas amarguras da vida, tanto para si quanto para os mais jovens.
Claro que não posso separar o verdadeiro do aparente, isso cada pessoa traz impresso em seu sincretismo.
Esclarecido esse ponto, estava eu sentada em uma banqueta na entrada do shopping tomando meu café e observando as pessoas - é um exercício maravilhoso pra mim fazer isso - quando vejo aquele homem parado.
Um homem negro, idade um tanto quanto avançada, altivo, chapéu de palha na cabeça, elegantemente vestido de cinza claro dos pés a cabeça, barba branca,  parado me olhando.
Arrepio e susto.
Parecia uma visão de fato.Por que ele estava parado e me olhando?
Ele então ajeitou o chapéu de palha na cabeça e ensaiou um sorriso (me pareceu) e altivamente pôs-se a caminhar. Sua figura destoava dos demais passantes e do local. Seus pasos eram lentos, parecia sempre manter um sorriso na face.
Passou pela minha frente - sempre altivo - e seguiu a passos lentos, corredor adentro.
Não o vi mais.
Eu tenho por hábito, deixar sempre uma xícara de café como um agrado para os Pretos Velhos no meu altar todos os dias. Para mim, naquele momento mágico, ele era um preto velho me dizendo um olá, fazendo um gracejo pelos cafézinhos.
Pouco me importa se era um vendedor de consórcio, ou advogado.
Ontem ele foi um Preto Velho pra mim, e me fez imensamente feliz por poder partilhar daquele momento curto e especial.
Um momento de fé.



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