terça-feira, janeiro 08, 2013

O DIA EM QUE FIZ VOTO DE SILÊNCIO

Em meados de 1980 e alguma coisa, eu frequentava uma comunidade franciscana.
Não que eu fizesse algum tipo de trabalho voluntário ou fosse devota de São Francisco, eu apenas gostava de ir ao local.
Eu e uma amiga homônima íamos até a Praça da Sé e pegávamos o ônibus Jardim Eldorado.Aliás, foi essa amiga (cuja família era extremamente católica e amiga dos padres jesuítas) quem me apresentou  à comunidade. Muitas foram as vezes em que lá estive, mas me recordo de uma em especial.
A primeira vez que fui também foi marcante.
 " Tem que ir de moletom folgado, camiseta e um tênis velho" dizia ela. Eu não tinha moletom. Nunca tinha usado uma calça de moletom na vida, então fui com a calça mais larga e velha que eu tinha. E minha homônima com um conjunto de calça e agasalho de moletom que em nada me parecia velho.No final, eu parecia uma mendiga enquanto ela estava apenas despojada.
O caminho da Praça da Sé até o dito Jardim Eldorado era longa, pelo menos parecia longa pra mim, e o trajeto não era dos mais bonitos. Descemos quase no final, perto de um barranco e no meio do nada. Imediatamente me arrependi em ter aceito a ideia de conhecer a tal comunidade. Eu nem gostava muito dos católicos, apesar de eu mesma ser um deles.
"É por aqui" disse ela apontando para o barranco.
" Por aqui aonde?" perguntei eu, enquanto seguia minha amiga que escalava o barranco segurando em galhos pra não cair, e adentrando o meio do matagal.
De repente só tinha mato. Mato, árvores de médio porte, barro, mosquito e uma louca seguindo outra. Lembro de ter pensado como alguém podia saber pra aonde ir naquele matagal. E aí surgiu uma trilha.
Enfim um caminho!
E aí andamos, andamos e continuamos andando por minutos que pareceram horas pra mim. E quando finalmente avistei a comunidade, ela me pareceu um oásis no deserto.
Imagine uma branquela caminhando debaixo de um sol -escaldante aquela altura- e servindo de alimento pra mosquitos esfomeados. Eu era um pouco disso, mas estava bem pior, se juntarmos o fato de eu ser alérgica a picada de insetos e minha calça me fazer parecer uma mendiga. Portanto não estranhei quando o irmão Estevão ao nos recepcionar na entrada do local perguntou a minha amiga se eu era participante de algum programa de reabilitação.
Mais tarde, o próprio irmão Estevão me emprestou um repelente e uma pomada para minhas alergias. E ainda riu das minhas calças.
A comunidade funcionava como um programa de reabilitação para dependentes químicos e alcoólicos. Havia muitos trabalhos feitos de forma comunitária, como o plantio e cultivo de hortaliças, limpeza do local(que era enorme) e também havia aparelhos para exercício físico e a capela para oração. Quem sabia alguma atividade como tocar violão por exemplo, dava aula em horários pré determinados. Tudo era extremamente organizado. As casas me lembravam bangalôs charmosos de madeira e apenas homens eram aceitos no local.Portanto, para que uma mulher pudesse ter a permissão de ir em um outro dia que não fosse o de visita, precisava de autorização do Fradão.
O Fradão era a eminência máxima da comunidade, e como vim a descobrir tempos depois, extremamente humano e doce.E me deu uma cachorrinha chamada(claro!) de Sabedoria, que viveu comigo até morrer.
Entendi perfeitamente a ordem de usar calça de moletom folgada.Imagine uma mulher de salto, decotão e mini saia em meio a tantos marmanjos...
Nunca ouvi ninguém falar alto ou ter atitudes bruscas.Todos eram muito respeitosos e estavam sempre ocupados com alguma coisa. Parecia que o tempo ali não existia. Tocava-se um sino para avisar sobre o almoço(tudo feito pelos franciscanos) e imediatamente todos nos dirigíamos à um local  arejado, com uma mesa de madeira gigantesca ladeada por bancos compridos.A alimentação era toda orgânica, não havia carne de nenhum tipo e serviam-se sucos de soja. Se alguém, por algum motivo chegasse atrasado, só poderia sentar-se a mesa quando terminássemos de fazer a oração de agradecimento pelos alimentos ali servidos.
Eu tive muitas conversas com irmão Estevão, muitos questionamentos sobre a fé e ele nunca, jamais mostrou-se ofendido com nenhuma de minhas perguntas cabeludas. Ele era um homem muito bonito, costumava chamar a atenção das mulheres em dias de visita, e jamais deu mais atenção a uma pessoa do que a outra. Adotara o nome de Estevão ao adentrar à ordem. E isso é uma espécie de procedimento padrão. Todos adotam um outro nome num ritual lindo e emocionante. Uma cerimônia que manifesta a opção pelo despojamento, vida simples, trabalhosa, dedicada a Deus e aos seus semelhantes de forma caridosa.
Falava de sua fé em Cristo e era maravilhoso ouvir suas palavras. Assumiu que muitas vezes questionava o celibato imposto, mas que até aquele momento isso não tinha importância ou peso em suas escolhas.
Anos mais tarde ele abandonaria suas vestes e iria embora pra Brasília, aonde pelo que sei, casou-se com uma mulher por quem se apaixonou perdidamente.
Não acredito que tenha perdido sua fé.  Fiquei feliz por ele.Foi um homem íntegro até na mais difícil de suas decisões.
Certa vez disse que eu era muito ansiosa, e me convidou para fazer um retiro espiritual na comunidade .
Pensei " ficar nesses bangalôs ouvindo passarinho cantar o dia inteiro, me balançar nas redes, ouvir música em volta da fogueira , comer comida gostosa e ainda poder perturbar irmão Estevão o tempo todo?" tô dentro!
Fomos eu e minha amiga homônima de mala e cuia, como se dizia.
Fomos recebidos por uma irmã sei lá eu o quê, e encaminhadas para o bangalô que utilizaríamos. A vista era linda! Pássaros cantando nas árvores, paz, paz, paz!
Irmão Estevão apareceu pouco tempo depois e disse: " vocês devem se restringir apenas a este local, capela  e refeitório. As seis em ponto tocamos o sino para a primeira oração da manhã na capela, e todos devem estar presentes, depois disso serviremos o café da manhã.Quando retornarem ao bangalô, vocês deverão sentar-se no chão da maneira que acharem mais conveniente, e arrancar todos os matinhos que ladeiam essa casa , e isso deverá ser feito com as mãos e lentamente. Eu trouxe este bloco de anotações e lápis para que vocês possam anotar seus pensamentos. Tocaremos o sino para o almoço. Não se atrasem ou ficarão com fome até o jantar. A tarde tocaremos novamente o sino convocando todos para as preces na capela e chá da tarde. Portanto, fiquem sempre atentas ao sino! E outra coisa. Durante os três dias em que vocês permanecerão aqui, não poderão trocar uma palavra sequer. Inclusive uma com a outra. O retiro é de silêncio total e absoluto, usem o bloco para se expressarem. Alguma dúvida?"
Eu estava em um campo de concentração!! Arrancar matos. Silêncio. Sino.Arrancar matos. Silêncio.Sino...Socorro!!!!
"Irmão Estevão -comecei eu -  não posso falar nada? nadinha? E porque eu preciso ficar arrancando matinhos??"
Ele apenas gargalhou e me disse que eu poderia desistir se quisesse, mas se ficasse seria exatamente daquele jeito.
Minha amiga topou na hora, e eu é que não ia desistir. O que seriam três dias sem falar??
Ainda estava escuro quando minha amiga me chacoalhou em minha cama. Olhei pra ela e falei "que foi?" e ela imediatamente tapou os dois ouvidos com as mãos e balançou a cabeça como uma criança autista. Me dei conta do voto de silêncio.
Fiz uma careta mais próxima possível de um "sinto muito". Ela balançou os braços apontando pras roupas e juntou as mãos como se rezasse. Ah, entendi, pensei. Precisávamos nos trocar porque em breve o sino seria tocado para a primeira oração do dia. Eu estava morrendo de sono, preguiça e a última coisa que eu queria fazer aquela altura era rezar. Nem espelho tinha no quarto e nós não podíamos ter um também. Então tá.
Ao chegar na capela oval, todos tínhamos que tirar os chinelos para entrar. Sentávamos no chão em posição de meditação um ao lado do outro e aguardávamos as palavras do Fradão. Depois eram entoados cânticos.
Foi a primeira vez que percebi a cruz de madeira. Todos os internos, assim como os franciscanos, usavam um cordão rústico no pescoço com uma cruz talhada em madeira pendurada. Na capela não havia nenhum santo, somente uma cruz de madeira e vitrais em alguns pontos.
Neste dia também ganhamos uma. E chá com pão de milho. Tudo feito ali mesmo.
Ninguém falava uma palavra, como isso era possível???
Pensei em tirar uma soneca antes do almoço, mas minha amiga me arrastou pelo braço e me apontou os matinhos que cresciam aos montes em torno do nosso bangalô. Haja consideração!
Quem iria me entregar para o irmão Estevão? Os matinhos?
E aí ela sentou-se no chão e lentamente começou a arranca-los. Que alternativa eu tinha?
Sentei próxima a ela e pus-me a puxar os renegados. Exigia força! Pareciam presos no chão ou fazendo birras tipo " não saio, daqui ninguém me tira".
Pensei que, nem tinham se passado algumas horas que eu estava sem falar e já estava enlouquecendo...
Segui arrancando aquelas pragas e machucando as mãos. O sol começou a ficar a pino e eu estava de saco cheio daquela porcaria. Queria levantar e gritar "ei irmão Estevão, contrata um jardineiro ou sei lá quem porque esse mato está acabando com as minhas mãos!". Mas não falei nada.
Olhei pra minha amiga e ela nem olhou de volta. Que amiga de araque!
Porque é tão difícil ficar sem falar nada???
Quando o sino tocou para o almoço, eu estava vermelha feito um pimentão, com as mãos ardendo e machucada em alguns pontos, faminta, mas principalmente furiosa.
Todos ficaram de pé para a oração e eu permaneci sentada. Claro que todo mundo percebeu a rebeldia, mas ninguém disse uma só palavra. Comi aquela gororoba verde desejando ir embora pra casa.
Quando voltamos para o bangalô irmão Estevão me esperava. Apontou para um velho chapéu de palha pendurado num canto do quarto - e ele estivera lá o tempo todo - e novamente estendeu-me o bloco de anotações com o lápis. Deu um sorriso e foi embora.
Coloquei o chapéu na cabeça e resolvi que ia arrancar matinhos do lado inverso da casa, longe de minha amiga. Aliás, o sol só servia pra destacar ainda mais sua pele morena, enquanto eu me transformava numa brotoeja andante.
Escrevi palavras sem nexo no bloco. A maioria xingamentos contra o irmão Estevão. Outras eram apenas palavras.
Tivemos o chá da tarde e depois ao anoitecer novas preces e o jantar.
Eu estava cansada. Esgotada.
Mas cansada de quê?
Só sei que quando me deitei na cama, apaguei.
Para minha surpresa, não acordei ranzinza ou mal humorada ao ouvir o badalar dos sinos na manhã seguinte.Me troquei e segui para a capela. Minha amiga já estava lá. Percebi que haviam livrinhos com os cânticos entoados logo na entrada e peguei um deles.Comecei a cantar timidamente com os demais. As letras eram lindas e acompanhadas do violão pareciam mágicas. Vi que os raios de sol que apareciam iluminavam os vitrais. A capela parecia uma igreja antiga, quase medieval, e a presença dos franciscanos com suas vestes e vozes potentes me transportavam. Pela primeira vez, senti vontade de chorar durante as preces.
Naquela manhã, arrancar os matinhos e ficar em silêncio não foi tão difícil. Minhas mãos ainda estavam com calos e machucadas, mas os pensamentos que surgiam eu anotava. Não importa o quão tolos me parecessem, eu simplesmente anotava. E assim, passou-se aquele dia e todas as suas rotinas.
No terceiro e último dia do retiro, eu despertei sozinha e segui pra capela antes dos sinos tocarem. E cantei animadamente com todos. E chorei com cada palavra do Fradão.
Minhas mãos estavam um lixo, mas meus pensamentos agora eram ordenados e eu podia anotar frases inteiras e não apenas palavras soltas.Era bom ficar assim. O silêncio tinha virado meu amigo. A solidão não era mais assustadora.
Quando finalmente terminamos o retiro, entendi que o matinho era apenas a ferramenta encontrada para que eu aprendesse a ordenar meus pensamentos. Entendi que o silêncio e o recolhimento são necessários. Principalmente às pessoas inquietas como eu, ou para quem acha que é exigido falar o tempo todo para dar vazão a racionalidade e emotividade.
A primeira palavra que eu falei foi "graças a Deus!" e depois " irmão Estevão eu queria te matar!", e ri muito.
Nunca mais revi o irmão Estevão, ou a comunidade, ou o Fradão.
Por conta da vida, minha amiga seguiu seus caminhos e eu os meus.
Mas nunca me esqueci da experiência. E do homem que me ensinou a ficar sozinha sem ser triste, a gostar de ficar comigo, e a nunca desvalorizar minha fé, ainda que diferente dos demais.
Quando li meu bloquinho fiquei surpresa com os escritos.Não vou compartilha-los.
Mas recomendaria que todo mundo fizesse um retiro de silêncio uma vez na vida.
Ainda que tenha matinhos pra arrancar.










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