quinta-feira, janeiro 03, 2013

DISTORÇÃO EM MAIS DE CINQUENTA TONS

Quando resolvi ter um blog nunca imaginei trabalhar com as hipóteses estatísticas.
A escrita era apenas uma ferramenta utilizada por mim para desconstruir e descortinar uma pessoa, aparentemente, como tantas outras, mas que trazia questionamentos considerados insanos. Com o passar do tempo acabei também postando outras coisas tantas. E foi neste momento que percebi minha preocupação com a tal estatística.Afinal quem se interessa em ler sobre as entranhas de outro ser, ainda que se identifique com estas?
Claro que eu posto coisas que me interessam, sejam elas fúteis aos olhos dos outros ou não. Quem quer ser intelectual, profundo e visceral o tempo todo? Haja análise.
Mas foi pensando nisso que me voltei para o sest seller "Cinquenta Tons de Cinza" que tornou-se uma trilogia. Enorme sucesso de vendas, mais de 3 milhões de cópias, acho eu, incluindo um cd com a trilha (do livro) criado pela própria autora.
Eu tenho o livro e não poderia comentá-lo se não tivesse ao menos folhado algumas páginas.
Achei o livro muito ruim desde o princípio, a escrita é horrorosa e a estória patética.Não sei que público é esse que consumiu os escritos dessa senhora, mas chega a ser preocupante. Principalmente porque narra a trajetória de uma garota com um homem retratado como sendo mais velho, bilionário, lindo, perfeito! Aonde vende esse protótipo não sei.
Quando eu era jovenzinha gostava de consumir alguns romances açucarados vendidos em banca de jornal. Tinham  nomes como "Sabrina" e "Júlia", e quem estiver na faixa dos quarenta e alguma coisa deve se lembrar. Eu não tinha dinheiro pra comprar um Machado de Assis, mas era sedenta por leitura, lia no escuro  pela brecha de luz que entrava pela janela da sala, aonde eu dormia, e até comendo. O que me rendeu muitas broncas de minha mãe.
Acredito eu, e esta é a minha opinião, que estes romances eram muito mais interessantes que "Cinquenta Tons de Cinza". E a saber: o livro tem este esse nome porque o homem perfeito e objeto total de devoção masoquista, chama-se Gray, ou seja, cinza.
Já pensou se o cara tivesse outro nome, tipo Epaminondas? O livro se chamaria " Cinquenta Tons de Epaminondas". Mas enfim, a narrativa é pobre, fraca.
Acabei de ler um artigo no jornal "Folha de São Paulo", caderno Ilustrada, em que Sérgio San'tanna  diz "O que é bom não vende muito. O pessoal não tem nível intelectual para consumir um livro de maior qualidade". O assunto não era "Cinquenta Tons...." mas sobre o espaço perdido entre leitores e romances nacionais.
Mas a frase de Sérgio San'tanna impacta.
Afinal de contas o que estão lendo os jovens? Migraram da saga Crepúsculo para sei lá aonde. Quando entro numa livraria grande, já fico impressionada e tonta, não nessa ordem necessariamente, com a quantidade de publicações empilhadas umas sobre as outras, cartazes chamativos e apelos diversos para os best-sellers. O público já é "empurrado" à essas obras, acredito. E se tantas pessoas estão consumindo e desejando, oras, deve ser muito divertido.
Mas muitas vezes- na maioria- a grande venda de um determinado livro além de se justificar pelos apelos  gastos com mídia, não possuem qualidade literária.Atendem ao público que absorve linguagem fácil, não reflexiva. Entender a construção de um livro requer dedicação. Fica mais digerível consumir uma coisa pronta do que suportar o ruído incomodativo de um não entendimento.
E apenas para fechar o assunto, voltemos a questão das estatísticas do blog. Eu tentei fazer um meio de campo durante um tempo e cheguei a um número de 65 mil acessos. É um número pífio se você comparar com um blog famoso, óbvio, mas significativo para uma mortal anônima. Ocorre que essa mortal não tem a pretensão de agradar. Como disse, lê meus escritos quem quer. Sou caótica e posso escrever um texto singelo e doce num dia, e no outro me rasgar inteira, pingar sangue pelas linhas, implodir em uma narrativa até assustadora. E no mesmo dia postar fotos da Vogue (que eu consumo) porque adoro ser mulherzinha.
Mas nunca, nunca, jamais serei uma mulherzinha subserviente.
Talvez esteja aí a chave de eu não gostar do tal best seller. E isso não tem relação com sexo, mas com a idealização do perfeito, que é chata e enfadonha por si só.
Se eu conhecesse esse tal de Gray ia mandar ele plantar batatas, porque detesto gente perfeitinha.Esse cara, se existir (o que eu duvido, já que os homens são uns fracotes), deve ser chato a beça.
Ah sim, quanto a minha retórica sobre os homens serem uns fracotes, excluem-se os inteligentes, categoria muito bem ocupada por meu marido e tantos outros, o que suplanta essa "falta".






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