quinta-feira, janeiro 03, 2013

CARTA ABERTA A TRISTEZA - " VOCÊ É PÉSSIMA CONSELHEIRA"

Deveria haver em mim um botão de "Páre!".
Mas não há.
Tomo minha xícara de chá amargo as cegas, enquanto esvazio esse estranhamento tão familiar.Não é fácil conviver com autodestruição. Minhas dores físicas atendem por nomes clinicamente pronunciáveis mas esteticamente feios, então os omito por conveniência. 
Mais um concerto, desta vez Vivaldi. Sempre prefiro Chopin, até ouvir da Gaby que "ele é um pouco triste..."
Descobri porque me identifiquei fácil. Me uno com largo despojamento aos tristes.
Aonde é o meu botão de "Páre!"?
Minhas mãos buscam os rabiscos com desespero, como se pudesse ser transcrito algo tão sem graça. Sou pessoa que busca sempre os extremos, os conflitos, beiro o exagero.Não gosto da obviedade. Não gosto de coisas prontas e definidas. Sou a favor das desconstruções, ainda que estas gerem e revelem outros lados de uma mesma estória.
Algumas pessoas inteligentes pensam enquanto outras apenas surfam nas ideias.Sou sempre favorável a um embate. Nunca ao autoritarismo.
Toda pessoa fadada a extremos e não classista, é constantemente vítima de violência. A mais cruel delas: o crivo do outro.
Dói as costas, os braços, ombros, tornozelos e membros afins.
Tudo é dor. E medicação.
Mas se eu tivesse um botão de "Páre!"...
Mudei de Vivaldi para Schumann. Me identifiquei.Há uma nostalgia impressa, um romantismo lírico que me agrada.
Dizem que Schulmann ouvia as vozes dos anjos e as transformava em música. Mas depois alegou que estas vozes passaram a ser de demônios e foi dado como louco.
Ele escreveu certa vez à sua esposa " tenho tanta música em mim que poderia cantar o dia inteiro". 
Tenho tantas dores em mim que poderia reclamar e choramingar o dia inteiro.
Já devo ter sido dada como louca a tempos pela minha analista, apesar de suas descrições ortodoxas e formuladas.
O lado bom de ser dada como louca é poder falar o que der na telha. Afinal de contas você já está tão queimada, que diferença faz? 
Eu amo a solidão da madrugada, mas sou pessoa diurna. Não gosto muito de sair de casa pra enfrentar multidões movidas a sons alucinados. Me sinto desconfortável em situações extremamente formais, então, graças a Deus, tenho senso de humor. Um pouco sarcástico e negro, mas sempre presente. Consigo rir de mim, me achar chata, irritante, detalhista e cheia de nhenhhenhem. 
Estou em busca de caminho que me permita não ser mais alvo da violência alheia. Sou metida a besta no trabalho, rebuscada, perfeccionista, implicante. Mas salvo e salvei muitas vidas. E não tenho nenhuma vaidade sobre isso. Aliás nunca nem busquei esse caminho em minha vida, apenas foi se desenhando naturalmente.
Cansa salvar vidas. Desculpe a sinceridade crua.
Não almejo medalhas , só evitar repetição de fórmulas gastas e envelhecidas.
Dar murro em ponta de faca cansa. Desgasta o corpo e a mente, e no meu caso, especificamente o corpo.
Preciso aprender a ser menos.
Buscar outro olhar que não sejam os meus.
Quero mandar as favas a teimosia e meus demônios.
Eles que vão arder em chamas pessoas noutro endereço.
Queria simplesmente dormir, mas não consigo. Queria a intensidade e a disciplina dos atletas, mas logo me entedio.Canso fácil das coisas. Das repetições.
Sou assim, uma pessoa triste por natureza esbanjando sorrisos afetuosos e fazendo outros gargalharem com minhas frases inesperadas.Sou engraçada.
E serei sempre assim.


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