sexta-feira, novembro 30, 2012

ENSAIO SOBRE A LOUCURA

Este artigo é bem deprê, e faço questão de avisar com antecedência.
Sempre fui pessoa alegre, bem disposta, popular na escola, líder juvenil, gremista, e nunca tive dificuldades com os garotos.
Tive uma infância normal, com altos e baixos como a maioria das pessoas teve: uma mãe mandona e um pai amoroso. Perdi meu pai e meu irmão com diferença de um ano, mas isso não abalou minha vida, apenas me trouxe uma tristeza normal de perda. Sempre trabalhei, desde a adolescência,primeiro numa escolinha infantil, e nunca mais parei. Já conciliei três empregos ao mesmo tempo.
Minha vida familiar é quase um comercial de margarina: meu marido é o homem que toda mulher deseja ter, sempre atencioso, acolhedor, paciente, parceiro, um ótimo pai e um homem que me completa. Meus filhos estudam, discutem entre si, como todos os adolescentes, mas são incríveis, amorosos, bons alunos, ótimos filhos e netos.
Eu amo minha ocupação, que é basicamente garantir esperança - não do verbo esperar - mas sim de esperançar, trazer o quase impossível na saúde de pessoas sem esta mesma esperança.
Mas eis que um dia, depois de uma situação no meu trabalho, minha vida nunca mais foi a mesma.
Eu fui ameaçada por um médico, que estava coagindo uma funcionária trancados sozinho em uma sala, e por conta deste enfrentamento, perdi minha equipe de trabalho, minha auto estima e alguns cabelos também.
Eu precisei de um afastamento temporário e enfrentei os peritos do INSS. Aquela contribuição que você paga mensalmente, sem direito a escolha, te garante em momentos como esse, um algoz do outro lado da mesa imaginando que você é mais um folgado querendo viver as custas do governo.Quem já enfrentou uma perícia sabe do que estou falando.
Resolvi que não precisava mais dessa porcaria e interrompi meus medicamentos sozinha. Até esse momento, meu medicamento era apenas a Sertralina de 50mg. Eu nunca precisei tomar sequer remédio pra dor de cabeça. Que se dane!
E com esse pensamento retornei ao trabalho em 06 de Fevereiro de 2012.
Veja, eu trabalho com profissionais médicos e isso não facilitou em nada meu retorno.Eu nunca podia me exaltar, ou discordar porque a lembrança da pessoa "louca" me assombrava, e os detentores do castelo adoravam segurar minhas mãos e lançar olhar lânguidos dizendo:"calma, você está muito nervosa" ou " você leva tudo muito a ferro e fogo", enquanto outras pessoas que faltavam ou desacatavam á outros, eram vista apenas como "normais" e tais atitudes apenas "característica" destas.
Virei um estigma. Mas nem por este motivo deixaram de me dar demandas de Ministério Público ou Liminares Judiciais pra resolver. Eu era a fodástica louca, mas que resolvia. Meu esgotamento e estresse com algumas pessoas estavam no limite. Eu estava no limite.
Percebi que estava de fato, me deixando descontrolar, e procurei o médico. Voltei com a Sertralina de 100 mg.Tentei retomar meu trabalho e cada vez mais me acrescentavam mais e mais  responsabilidades.Levei trabalhos pra casa.Aumentei por conta própria e conveniência de outros, minha carga horária. Trabalhava 12, 14 horas por dia. Todos os dias.
Comecei a ter insônia. Muita insônia.
Voltei ao médico e ele me receitou Alprazolan 2mg .Então eu tomava Sertralina de 100mg ao acordar e Alprazolan de 2mg pra dormir.
As pessoas no trabalho me irritavam além da conta com as irresponsabilidades de horário, relaxo com os pacientes e politicagem barata.
Continuei monitorando meu trabalho de casa, nos finais de semana.
Comecei a acordar com dores no corpo, nos tornozelos, coluna, braços, até que um dia travei na cama.Não conseguia caminhar. Comprei uma bengala pra me apoiar. Fiz uma RNM da coluna e nada foi detectado de grave.Fix um Eletroencefalograma, e nada.
O medico me passou Prebictal de 75mg para a fibromialgia.Agora eu tomava três tipos de medicamentos diferentes.
No trabalho eu tinha crises de choro no banheiro, mas estava sempre sorrindo na maior parte do tempo, então ninguém percebia muita coisa.
Retornei ao médico e reclamei que a tal da Sertralina não fazia efeito em mim. Trocamos então pelo Reconter de 10mg.
Nesse período tudo foi ficando uma merda na minha vida. Perdi a vontade de fazer qualquer coisa, mas fingia que era uma beleza.Passei noites em claro chorando, tentando entender o que acontecia.E no dia seguinte estava maquiada e perfumada no trabalho. E consequentemente, mais responsabilidades surgiam, ninguém aparentemente fazia muita questão de perceber alguma coisa.
Uma manhã cansei de provar minha sanidade e após dizer isso ao meu chefe, esgotada mentalmente, juntei minhas coisas e fui embora. Ele sequer se interessou em saber o motivo.
Meu médico me afastou por 30 dias e me fez uma carta de encaminhamento ao CAPS. Antes de ir ao CAPS eu ainda procurei a Psiquiatra da empresa, e esta pessoa me incluiu a Venlafaxina no lugar do Reconter. E me liberou pro trabalho.
Tive vontade de jogá-la do 5º andar.
Procurei o CAPS e fui atendida por uma Assistente Social muito simpática.A casa é discreta, tudo muito agradável e com pessoas de todos os tipos de insanidade. Desde pessoas muito bem vestidas e com uma aparente clareza mental, até uma senhora que jurava ser a personagem de uma revista chamada Sentinela.
Se eu me senti estranha? Na verdade, eu estava em casa, com pessoas tão problemáticas quanto eu.
Quando conversei com a Assistente Social, chorei tanto que até solucei.
Eu odiava tomar os remédios, e finalmente assumi isso.
Essa "Coisa" que te acomete vem exatamente na cola das pessoas fortes, que se acham indestrutíveis, insubstituíveis, fodásticas mesmo.
Assumi que a terapia é a minha maior aliada. Fazer análise não é coisa de gente rica ou fresca, mas de quem tem um mínimo de respeito pela família, que não merece posar de padre de confessionário todos os dias.
Sim, eu tomo Alprazolam, Prebictal e Reconter. Talvez venha a tomar a tal de Venlafaxina.
Já não me importo se perguntam pra que tanto remédio. Respondo que prefiro-os à "Coisa".
Ainda tenho resistência a todos eles, mas resolvi de verdade me dar uma chance, e o estudo, a leitura me ajudam bastante.
Eu tinha a mania de querer salvar o mundo, mas quer saber? Não vim aqui pra salvar ninguém, vim para me salvar, me melhorar. Posso trocar com outras pessoas, mas a única pessoa que tenho a missão de salvar, sou eu mesma.
É um desabafo curto, frio e sincero.
Ainda não descobri na análise de é uma depressão ou um stress.Mas nem ligo.
Só espero que outras pessoas possam entender que um estressado, ou deprimido sei lá, também pode gargalhar, cantar, ir ao cinema, ler livros e ainda assim, sentir um buraco dentro de si, sem fim.
Eu sou viciada em trabalho, outros em jogos, drogas, álcool...
Todos temos nossos demônios, e são facilmente identificados e escondidos.
Difícil é expôr e assumir que o seu maior compromisso nessa vida,e sua maior batalha, é com você mesmo.








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