quarta-feira, novembro 14, 2012

A GRANDE DOR QUE É VIVER

Ainda hoje é difícil admitir.
Fico aqui buscando palavras e frases sem concluir coisa alguma.
Desde pequena tenho uma veia cômica. É até absurda a facilidade que tenho, espontaneamente, pra fazer as pessoas ao redor de mim darem risada. Eu dou risada de mim mesma.Aliás dou risada todo dia.
E justamente por essa espécie de vocação pra felicidade, seja tão difícil admitir a tristeza.
Principalmente quando ela não é focada, específica ou óbvia.
Achei que fosse impossível rir e chorar ao mesmo. Na minha cabeça, ou se está triste ou feliz.
Bobagem.
Com a descoberta da depressão, também descobri que posso trabalhar rindo e chorando, ouvir uma música rindo e chorando, lavar a roupa rindo e chorando e até ficar só quieta rindo e chorando.
O ser humano é excepcional.
Também percebi o quanto a ideia da morte pode nos assombrar. Isso não quer dizer que tenhamos medo, mas que a percebemos. E enquanto essa possibilidade nos afronta, nosso gato dorme tranquilamente no sofá da sala. Você acha que ele não teme a morte por ser irracional? Como explicar os instintos que os impedem de saltar grandes alturas, ou não ficar parado no avançar de um carro?
A questão é que os gatos não perdem tempo com isso. Somos os únicos animais a nos desesperar com a fatalidade.
Na mitologia grega, a sorte era representada pela figura das Moiras, que teciam e cortavam o fio da vida. Ninguém tinha autoridade para discordar do destino que teciam as Moiras.
Mas isso é mitologia.
 Na vida real, somos nós os responsáveis por tecer os caminhos de nossa própria vida.
Ontem me deparei com a constatação fria e crua de que, assim como os hipertensos que se descobrem hipertensos tornam-se reféns de medicamentos, posso ter uma morte em meus neurotransmissores e ser dependente eterna de tarja preta.
É fato pra mim, que a bipolaridade foi gerada por um comportamento continuado e insistente. E esse comportamento contaminou e exterminou alguns de meus neurotransmissores. Que comportamento é esse? Resistência.
Resistir obstinadamente causa estresse. E estresse mata neurônios. E neurônios não se regeneram.
Algumas células "brotam" por assim dizer no cérebro de um adulto, mas apenas na região cerebral responsável pela memória, dá-se a isso o nome científico de neurogênese.
E até mesmo nesse aspecto há controvérsias, pois muitos cientistas afirmam que o cérebro de um adulto com o avançar dos anos, seja mais estável do que adaptável.
Sendo assim, essa tese corrobora a de meu médico de que, assim como o hipertenso, talvez eu precise de medicamentos pelo tempo que me resta.
Eu não sou melancólica. Não passo o dia chorando. Não vivo descabelada ou maltrapilha. Não dou cabeçada na parede e nunca pensei em cortar os pulsos.
Sou uma pessoa que celebra a vida, amo minha família, meus bichos, dou risada e choro. Ou seja, igualzinho a você que está lendo essa palavras esparramadas.
Mas sabe aquele freio que você naturalmente tem quando te irritam? Eu não tenho mais a perspicácia de saber quando usá-lo.
 Dura um segundo.
O tempo de piscar pra nascer, e parar de piscar pra morrer.
Nesse um segundo eu pego a bolsa e dou as costas. Nesse um segundo eu mando meu chefe ir pra um lugar que nem todo mundo gosta de ir.Nesse um segundo sinto uma dor tão grande atravessar meu peito que, se não estivesse viva, juraria que era a sensação da morte.
Por que esse "segundo" permeia minha vida?
Não há como sabê-lo ao certo.
É poético dizer que, "mulheres fortes e intelectualmente inteligentes são mais propensas à fibromialgia ou a bipolaridade". Pode-se também argumentar que, mulheres com maior grau de imaturidade e inconsequência também o sejam.
Mas isso não torna menos caótica a afirmação do meu médico.
Sim, ela pode ser química ou situacional. E isso quer dizer que  talvez você precise de remédios para compensar a perda de neurotransmissores, ou que questões situacionais possam causa-la. Ou ambas.
Os gregos acreditavam que a depressão piorava no mês do Outono, o que certificava uma questão sazonal. Pois bem, no século IV Júlio Cesar determinou que o ano seria composto por 12, e não mais por 10 meses.E desta feita, alterou o calendário dos bipolares. O ano não mais iniciaria em Março, e  Dezembro (dez) transformou-se no mês 12,  o Natal (do Latim - nascer) que era comemorado também em Março pelo solstício de inverno, mudou para Dezembro, que emendou com Janeiro, que emendou com Ano novo, trazendo assim ainda mais melancolia às pessoas reclusas.
O que me leva a pensar que Júlio Cesar é o pai da depressão e não Hipócrates.
Pressupondo que seja situacional a minha depressão - espero que seja - fica mais fácil, digamos assim, conviver com ela. Talvez se eu me mudar para a Transilvânia não precise de medicamentos controlados. Eu sei que a Transilvânia é fria e a maioria escolheria Miami, mas acontece que eu não me relaciono muito bem com o calor.
Minhas múltiplas relações sociais com meu suco de laranja e a cartela de alumínio me dizem que é hora de aceitar o fato. E pode ser que, aceitando o fato pra mim improvável, de que uma pessoa alegre possa ser depressiva, impulsiva, ter picos imaturidade, ser bipolar,  eu me aceite. E me aceitando, me abrace como sou. E apesar da inegável vocação pra felicidade, da minha espiritualidade, da minha família, dos meus bichos, dos origamis da sorte e todo aparato intelectual, preciso dos meus remédios pra dormir e para acordar mais tolerante comigo mesma e com o mundo.
Não sou perfeita.
E nem preciso sê-lo.









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