terça-feira, novembro 27, 2012

A CULTURA DO LOGRO


Um artista conhecido viveu a seguinte situação: fez uma campanha para angariar dinheiro destinado a ajudar uma instituição de caridade. Tendo recebido um apoio incrível em nome da campanha de seus milhares de fãs cadastrados em seu mailing e nas redes sociais, ele imaginou que conseguiria arrecadar um bom valor, suficiente para o fim destinado.
A promessa era grande. Acontece que quase ninguém se moveu para, de fato, apoiá-lo. O dinheiro conseguido foi irrisório em relação ao esperado. E o que era esperado? Ora, algo que parecia estar sendo prometido. Mas algo estava sendo “prometido”?
De fato, não é bem assim. A confusão entre o que se insinua e o que se promete é questão importante. Insinuar é o gesto de sub-prometer. No mercado amoroso, por exemplo, a insinuação se constitui como mero sinal que pode ou não implicar realização de fato. Insinuar sempre pode significar outra coisa. A insinuação é um tipo de pré-prática. Ela se coloca como a antessala dos fatos, onde muitos se acomodam tranquilamente.
No campo sexual, ela é um gozo em si mesmo. Preâmbulo da sedução, a insinuação não implica compromisso. A sedução é mais perigosa, exige que algo entre o poder e a impotência se verifique na prática. A insinuação não. Ela fica aquém da sedução no prazer sinuoso daquilo que compraz porque não compromete.
Neste contexto é que podemos falar de uma cultura do descompromisso em vigência entre nós. Ela se alegra com a ameaça, não com o feito. É o falar sem precisar fazer, embora saibamos que falar é, de algum modo, sempre fazer.
Outro exemplo é o de inscritos previamente em debates, lançamentos e aulas abertas. Quando são abertas inscrições gratuitas, há sempre um excesso de inscritos que não comparecem. Sem inscrições as pessoas comparecem, pois tem medo de perder o evento. Mas a inscrição prévia, quando o evento é de graça, abre a possibilidade de descumprir o compromisso assumido sem nada perder. Há uma satisfação complexa nesta promessa feita para ser descumprida: é o gozo do logro.
Márcia Tiburi

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