sábado, outubro 06, 2012

O DIA EM QUE ME VI


Medo de envelhecer.
Eu nunca nem pensei nisso.
Quando eu era pequena, um adulto de quarenta anos era um “senhor”, ou seja, velho. E uma mulher de quarenta, idem.
Então, se eu me transportasse para os anos 80, com os meus 4.6 seria uma idosa.
Mas nunca me ocorreu perder tempo funcional analisando essa situação. Até ver uma sequência de fotos que uma argentina chamada Susy Goldberg realizou dela mesma.
Desde 1976 ela se deixa fotografar pelo marido, e o tempo, literalmente dito, está impresso nas imagens.
Ao acompanhar as fotos à partir de 1976 até o momento atual, é nítido que, apesar de ainda continuar bela, ela envelheceu.  Em que momento isso aconteceu, é impossível notar.
Eu fiquei olhando, e olhando, e olhando de novo, pra tentar captar “aquele momento” em que o limite foi ultrapassado.
Mas é impossível.
A constatação é que a vida passa para todos nós. E nem nos damos conta disso.
Parece piegas falar assim, mas, por uma fração de segundos, olhando para aquelas fotos, me lembrei do nascimento de minha primeira filha.
Eu lembrei que estava numa sala toda clara - pelada de avental, touca e um par de sapatos ridículos que toda gestante usava, ou usa ainda – e morrendo de medo da cirurgia. Eu estava sozinha e tocava de fundo uma música do Djavan. O engraçado é que não lembro qual era. 
 Me recordo de uma enfermeira simpática dizer “vamos mãezinha!” e me pegar pela mão pra eu seguir à sala do parto. Lembro que o meu ginecologista estava todo de branco e havia mais umas outras três pessoas vestidas assim também. De repente me veio a memória todos os detalhes desse dia.
Eu precisei sentar na maca em posição de lótus para que o anestesista me aplicasse a tal da injeção. Perdi totalmente o controle sobre o meu corpo e fui deitada. Me senti revirada por dentro enquanto meu médico contava sobre a viagem que havia feito à Disney com os filhos.
Quando ouvi o choro da minha filha pela primeira vez e vi seu rostinho, chorei. Eu não sei exatamente porque as mães choram nesse momento, mas é um sentimento desconhecido que te acomete. Eu conferi se ela tinha todos os dedinhos, mãos, pés,orelhinha…coisa de mãe.
E em poucos minutos eu atravessara uma porta que mudaria minha vida. A menina não existia mais. Agora eu era uma mulher, e uma pessoinha dependia de mim pra se alimentar ,se manter aquecido, ser amado e até pra se livrar dos mosquitos.
Aquela pequena garotinha chorona me daria muitas noites em claro, me causaria olheiras incontáveis e me arrastaria para festinhas escolares e me faria cantar músicas do Roberto Carlos todos os anos no dia das mães. A mesma música. E eu choraria em todas elas. E eu nem gosto tanto assim do Roberto. Quem se importa?
Me faria sofrer com a sua tristeza e sorrir com a sua alegria.
Mais do que tudo isso, me ensinaria a ser uma pessoa melhor.
Contei tudo isso porque exatamente hoje, vinte e dois anos depois, eu percebi realmente o que significa envelhecer.
E não foi penoso, nem amargo.
Foi divino.
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