domingo, setembro 30, 2012

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Eu uso o metrô todos dias. Ou quase todos os dias.
Na passarela as pessoas se acotovelam à chegada do trem numa luta mental silenciosa do tipo, "vou entrar nesse de qualquer jeito", e este pensamento, se pudesse ser ouvido, seria uníssono.
Já dentro do vagão, alguns se ocupam com seus fones de ouvido, outros tentam ler algo, normalmente algum best seller besteirol, outros reclamam do tempo, do atraso, da folgada que está se escorando ou do aproveitador que está bulinando.
Todos os dias essas cenas se repetem, e posso citar uma dezena de outras. Todas tão chulas e insignificantes quanto.E me enquadro em todas elas.
Mas de tudo o que vejo e ouço, nada me impressiona mais que os cadáveres ambulantes que cruzam meu caminho quando saio da estação.
Ás vezes me sinto dentro de algum episódio novo de The Walking Dead, aquela série do canal Warner em que os zumbis tomam conta das cidades e os humanos vivos são minoria. É terrível.
Quando amanhece o dia, um amontoado de figuras arrastando seus cobertores e parcos pertences, se mistura entre a multidão apressada. Ninguém perde tempo olhando. Desvia-se ou aperta-se bolsas e pastas junto ao corpo, já antevendo algum ataque.
Além destes que se arrastam buscando outro canto qualquer,  mendigando um pedaço de pão na frente dos muitos bares, lanchonetes e restaurantes do centro da cidade, há outro grupo. Este é formado por corpos inertes, encolhidos e protegidos por farrapos de pano ou papelão. Destes a gente também desvia, mas pra não pisar.São muitos corpos. Estarão vivos? Quem sabe...
Tornou-se indissociável os corpos que rastejam ou os que estão inertes do centro de São Paulo.
Eu tenho uma retórica pobre, mas ouso dizer que alguma coisa está muito errada no que diz respeito aos tais direitos humanos.
Independentemente da escolha ou não, que alguns destes infelizes pode ter feito na vida, é inaceitável ser insensível a essa realidade. Mais ainda: é desumano.
O fato de torná-los invisíveis aos nosso olhos, não faz com desapareçam. Sim, porque o desejo de que eles sumam de vez é real. Não sejamos falsos puritanos.
Mas se o que separa nossa humanidade do instinto animal é a nossa capacidade de raciocinar, corremos perigo eminente de amanhecermos latindo, mugindo ou grunhindo (com todo respeito aos cães, vacas e porcos), visto que a cada dia o desamor e a indulgência está mais eminente em nós.
Voltando ao metrô, outro dia presenciei uma discussão acalorada entre duas mulheres. Ao que parece uma estava encostada demais na outra, que achou um despropósito, e mandou a "colega" ir pra um lugar que a outra não estava interessada em ir, e assim foram batendo bocas por várias estações, até que uma desceu. A cena provocou risos é verdade, mas também ilustra a nossa intolerância. Numa sociedade civilizada não há lugar para crianças se prostituindo por drogas, idosos abandonados feitos cães leprosos em marquises ou cadáveres cobertos por papelão, ante o olhar alheio de cada um de nós. Não precisamos ser dinamarqueses ou suíços. Apenas humanos.
Amanhã será segunda feira.
Bom seria descer as escadas para a plataforma do metrô e dar um "bom dia" às pessoas ao meu lado, sem correr o risco de ser jogada na linha do trem, não sem antes ouvir um  - "tá louca?"-  Bom seria entrar sem ser empurrada ou ter que empurrar alguém pra conseguir um lugar lá dentro.
Bom mesmo, seria só admirar as árvores da Praça da República na minha caminhada. Não só porque são lindas.Mas porque nas ruas da minha cidade além dos passantes, do concreto frio, também haveria somente a beleza das árvores que florescem na primavera, à distrair meu olhar.Bom seria ver apenas livros nas mãos das crianças que encontro nesta caminhada.
Como disse Gore Vidal: " Um escritor deve sempre dizer a verdade. A não ser que seja jornalista".
Visto que não sou uma coisa e nem outra, está dito.









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