segunda-feira, janeiro 30, 2012

MISS SIMPATIA

Tem coisa mais chata que obrigação de fazer alguma coisa?
E pode ser qualquer coisa, desde tomar banho a ter que ser simpático. Tomar banho a gente pode pular, mais ou menos como um ato insurgente: " hoje não vou tomar banho!". Quem vai ficar fedendo é você mesmo...
Mas ser simpático ocupa outro nível.
Por exemplo, não dá pra olhar pro seu chefe e dizer o que de fato você quer quando ele ou ela chega no trabalho com um corte de cabelo horroroso e faz a fatídica pergunta " e aí ficou bom, você gostou?". Óbvio que você vai sorrir e mentir: " noooossa , ficou lindo, você rejuvenesceu uns dez anos com esse corte!", quando em seu âmago mais profundo regurgita " minha nossa, que negócio mais feio é esse??". Mas todo mundo com um mínimo de sanidade sabe que, pelo bem do sustento da família e das maquiagens, não se pode dizer a verdade e têm-se a tal da maldita obrigação em ser simpático.
Ás vezes passo vários dias sem escrever nada. Falta vontade, inspiração, assunto ou seja lá o que for, então simplesmente não escrevo. Acho um saco quem escreve por obrigação. E acho um saco maior ainda escrever com simpatia pra agregar simpatizantes. Eu só escrevo sobre o que me chama atenção, ou sobre minhas lembranças. Nem sempre o que escrevo é engraçado, mas sei que meus textos tem um quê de engraçadinho, culpa minha que sempre encontro um jeito de ver piada em tudo quanto é situação. Cada escritor, ou cada ser metido a escritor, possui algo que o caracteriza. Talvez no meu caso seja o esculhambo. Inclusive comigo mesma. Mas voltando.
Acho incrível pessoas que se profissionalizam na arte da mentira simpática.
Por exemplo, você vai na casa de um parente (outra obrigação que é sacal), e aí ele serve aquele café com bolo caseiro. O café está requentado e o bolo com gosto de nada com qualquer coisa, mas você toma todo o café dizendo "hummmm, delícia de café" e devora o bolo insonso com um pedido de " ahh, você têm que me dar a receita desse bolo!", quando na verdade queria dizer " não dava pra comprar um bolo pullman e servir com um guaranazinho??". Mas sua simpatia é tão convincente que, certamente, em uma próxima visita, o tal parente vai servir o mesmo bolo e o mesmo café requentado.
E sabe o que é pior do que ter a obrigação de ser simpático? Saber que todo mundo prefere a mentira simpática do que a verdade sincera.
Outro dia visitei um amigo em seu escritório. Conheço esse amigo a mais de vinte anos e o seu café é uma tragédia a exatos vinte anos.
Como de praxe, ele me serviu o tal café que, ele insiste em preparar numa cafeteira mequetrefe . Resolvi romper com esse círculo maluco da tal obrigação e fui sincera.
"Olha, seu café é horrível!"
" O quê?? Sua cobra, da próxima vez vou servir água!"
"Credo! Só tô sendo sincera. Por que você não desiste de tentar fazer café, ou então não compra Nescafé, ou então uma cafeteira melhor?"
" Não vou comprar coisa nenhuma! E se você quer saber, todo mundo elogia meu café!"
" Lamento ser portadora de tal notícia, mas eles mentem!"
Nem preciso dizer que meu amigo disse que eu estava na tpm e que ia relevar minha bizarrice.
Ou seja, se eu quiser manter o amigo vou ter que beber aquele troço que ele chama de café e assumir que estava de tpm. Pra não perder a amizade.
Não me dei por vencida e testei minha teoria com meu marido.
Estávamos iniciando o almoço e ele temperava uma salada. Experimentei. Estava azeda pacas.
Meu marido repetia a cada dois segundos " sei não, acho que tá faltando alguma coisa..." e eu respondia internamente " claro que tá faltando, tá faltando açúcar!", mas minha boca não obedecia meus pensamentos (acho que o amor faz coisas incríveis, outra teoria minha) e balbuciava " imagina amor, tá ótima, não falta nada..." e por incrível que pareça, comi a tal salada.
É por essas e outras que mantenho minha tese de que ás vezes, e só as vezes, uma mentirinha cai bem.
Pra não perder a amizade.
E o amor também.

Photobucket


Você pode gostar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...