domingo, janeiro 29, 2012

METAMORFOSE

Quando criança gostava de brincadeira de moleque: correr, jogar bola, bicicleta e tudo o quanto exigisse esforço e denotasse suor.
Minha mãe ralhava horrores e repetia a exaustão " essa menina parece moleque!".
E parecia mesmo.
Sempre gostei de cabelo curto, calças, shorts, tênis, botas e chapéu.Sim, eu adorava um chapéu, mas nunca tive ou usei nenhum.
Minhas pernas e braços estavam sempre ralados e marcados pelos vários machucados oriundos
das partidas de futebol com os meninos.
Eu também era adepta de grandes aventuras e topava qualquer desafio, portanto nem me causou espanto saber depois de crescida que, os supostos peixes que eu capturava com um amigo nos campos alagados, eram na verdade girinos.
Em outra ocasião estava na casa da minha tia e me imaginei Indiana Jones mergulhando no pântano para lutar com jacarés, ignorando a água rasa da piscina me atirei de cabeça e ganhei três coisas inesquecíveis: um machucado na cabeça, um dente quebrado e uma surra da minha mãe.
Na adolescência era quase provável que esses surtos passassem, mas o "quase" falou mais alto e mantive o estilo: botas, calças rasgadas e cabelo raspado.
Anos mais tarde estava eu no metrô indo para o trabalho quando reconheço um colega de escola.
" Fulano, tudo bom com você, lembra de mim?"
O fulano me olha desconfiado e aperta a pasta que carregava contra o peito. Insisto.
"Fulano, sou eu, Valéria! Estudamos juntos, lembra?"
O tal fulano aperta os olhos como se estivesse tendo a visão prejudicada e balbucia " Val?? é você mesmo!??"
"Claro que sou eu, não tá me reconhecendo?"
" Caramba!! Você nem parece você!!"
Lógico que, depois de abraços e trocas de telefone compreendi perfeitamente a estranheza.  Adoro um salto alto, um perfume, uma maquiagem e uma roupa feminina. Ou seja, sou completamente diferente da pessoa que existiu até os vinte anos.
Como somos camaleônicos!!
Mas ainda adoro um cabelo curto. E vira e mexe dou um jeitinho de cortar um pouco, contrariando meu marido que adora um cabelão. Também continuo adorando andar descalça e as brincadeiras de meninos.
Mas não sei se hoje existem mais brincadeiras de meninos e meninas, tudo está junto e misturado.
Graças a Deus!
Enfim, nada é definitivo na vida. E que bom que podemos mudar nossa opinião a respeito das coisas e de nós mesmos.
Quando envelhecer ainda herdarei minhas tatuagens e os pés descalços, mas terei impresso apenas na memória a garota que pescava girinos e raspava a cabeça.
Mas com certeza usarei chapéu, e manterei a cabeleira.



Imagem: Reprodução.

Você pode gostar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...