quinta-feira, dezembro 29, 2011

A CIDADE DOS MISTÉRIOS

Passei boa parte da minha infância em uma casa antiga que meu pai comprou em Minas Gerais. Era uma casa dessas em que o assoalho era todo de madeira, tábuas largas e compridas que arriavam a cada passo que a gente dava. As janelas eram enormes e nunca entendi porque eram tão grandes. As portas também eram gigantes e de madeira, mas não lembro se tinham trinco ou coisa parecida. De uma coisa me recordo muito bem: não havia forro em casa, o teto parecia vazado e dava pra ver todas as telhas do lado de dentro. Já cheguei a ver morcego dando razante...
Outra coisa interessante eram os colchões -todos de palha de milho- não sei se eram mais baratos ou se eram uma tradição, mas o fato é que em todas as casas havia ao menos duas coisas em comum com a nossa: colchão de palha de milho e fogão a lenha.
Minha mãe fazia toda a nossa comida nesse fogão, e ele ficava em uma cozinha só dele com linguiças e iguarias pendurados e espalhados pelo lugar.
Essa casa era tão grande que alguns cômodos ficavam vazios.
No mês de janeiro acontecia uma festa chamada de folia de reis. Nunca entendi nada disso, mas em resumo o que acontece é que um grupo de pessoas sai as ruas vestidos de palhaços e outras figuras folclóricas empunhando bandeiras e cantando músicas com temas religiosos. Eles costumam passar em todas as casas e cantam para seus moradores.As vezes o canto era ininteligível, haviam gritos e mistura de vozes. O palhaço em especial, sempre me causou pavor.Acho até que foi daí que surgiu o meu medo de palhaços, mas meu pai me explicava que esta festa era muito esperada e respeitada também, sendo suas bandeiras ou estandartes como chamavam, decoradas com figuras alusivas ao menino Jesus confeccionadas pelas próprias pessoas que as empunhavam.
Próximo de nossa casa morava vovó Tetela. Ela não era minha avó de verdade, mas como era muito parecida com minha avó e muito querida por meu pai, acabou incorporada a família. Meus avós paternos morreram antes que eu os conhecesse e vovó Tetela foi a substituta oficial. Ela devia ter menos que 1,50 de altura e era bastante franzina. Tinha os cabelos ralos e brancos muito compridos, sempre presos em um coque. Usava um óculos e fazia caminhos de mesa com uma precisão inacreditáveis para alguém perto dos noventa anos. Se tinha uma coisa que me tocava fundo na alma eram os doces de leite feitos no fogão a lenha  na casa de Dona Tetela. Nunca comi nenhum doce de leite igual ou parecido na minha vida.
Ela ficava horas mexendo aquele leite no fogão, labaredas estalando na madeira, um calorão na cozinha. De repente ela virava a panela gigante com o doce em uma tábua de madeira sobre a mesa da cozinha. Era proibido tirar qualquer lasquinha que fosse. E eu ficava só de olho. Mas vovó Tetela também.
Depois de um tempo ela cortava em tiras e depois em cubinhos que ia depositando em potes de vidros grandes. Quando ficavam liberados pra degustação eu me empanturrava.
Tempos depois em que já tínhamos vendido nossa casa, meu pai sempre voltava de Minas com os tais docinhos de leite da vovó Tetela. Nunca faltavam.
Nossa tv era preto e branco, ninguém tinha televisão colorida em casa, então usávamos um recurso muito tecnológico: uma tela colorida que ficava pendurada na frente da tela da tv. Não sei quem foi o gênio que inventou esse troço, mas era uma febre.As pessoas na tela ficavam verde, rosa e azul ao mesmo tempo. E olha que isso era luxo lá em Minas.Todas as casas tinham esse celofane pendurado na televisão.
Tudo era mágico naquele tempo, mas criança não tem muita percepção pra essas coisas e eu precisei crescer pra reconhecer isso.
Sinto falta do meu pai e suas prozas, da vovó Tetela e seus doces de leite e até do palhaço da Folia de Reis.Mas do maldito celofane não sinto falta alguma.
Quando fecho os olhos ainda consigo ouvir o barulho dos grilos, o canto do galo na madrugada, o farfalhar da palha no colchão. Ainda sinto o cheiro da couve feita no fogão a lenha e ouço a correria do povo nas ruas pra ver a chegada da Folia....




Imagem: Reprodução.

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