sexta-feira, dezembro 02, 2011

CAIXA DE SONHOS

Comecei a ler muito jovem. Acho que uma das coisas que mais gostava de fazer na vida era ler. Lendo eu podia deixar de ser uma menina com poucos amigos e pobre, para me transformar no que eu quisesse. Meu pai teve pouco estudo e minha irmã até hoje repete que, ele era "das antigas", ou seja, de uma época em que lugar de mulher era na cozinha e não entre livros. Mas por algum motivo que desconheço, penso que meu pai entendia minha paixão pelos livros e embora nunca tenha dito coisa alguma, seu silêncio respeitoso quando me encontrava sentada em algum canto mergulhada entre páginas, sempre me incentivava, ainda que discretamente.
Nessa época, minha mãe e meu pai trabalhavam duro pra construir a nossa casa, dessa maneira não existia nenhum tipo de regalia como presentes de aniversário ou natal. Minhas bonecas eram todas de papel, do tipo que vinha numa revistinha e a gente recortava e ia encaixando as roupinhas.Tinha várias.
Uma vez, quando fiz aniversário, meu pai me perguntou se eu queria uma vitrola de presente. Imagine só, uma vitrola!
Eu tinha alguns discos comprados de segunda mão como The Police por exemplo, que foi a primeira banda de rock que ouvi na vida.Até hoje ainda tenho este disco. Mas na mesma semana passou um homem vendendo uma enciclopédia gigante, nada muito famosa, mas com um monte de livros imensos e coloridos.
Nessa época era comum os vendedores baterem de porta em porta oferecendo grandes caixas recheadas de tudo quanto é tipo de livro, eles eram nossa Mega Store.
Não tive dúvida: pedi a enciclopédia, que aliás, também tenho até hoje.
Acabei ganhando as duas coisas. O que sempre alimentou em mim que meu pai apoiava e respeitava minhas escolhas.
Confesso que surrupiei muitos livros que não podia comprar, e tomei posse de outros tantos obtidos como empréstimo em bibliotecas públicas. Apego desnecessário dirão vocês, mas eu até hoje tenho essa necessidade de manter os livros por perto. Gosto de reler, de deixar esquecido por um tempo e aí de repente  ir até lá e me surpreender com algo que não percebi antes, mudar a interpretação, me encantar.
Acho que essa é a definição perfeita do que significa a leitura pra mim: encantamento.
Hoje durante a tarde, ajudei minha filha Nina de sete anos com a lição de casa. Em um determinado momento, ela sacou o livro de leitura da escola e pôs-se a ler uma lenda sobre a mandioca. Fixei meu olhar naquela pessoinha que lê com desenvoltura impressionante e,  por um breve momento,  vislumbrei a menina magricela, sardenta e comprida que fui, bem ali, sentada na mesa da cozinha. Por um momento pude ouvir os gritos de minha mãe " Valéria, enquanto se come não se lê, larga esse livro!", e a teimosia em desafiar uma mama brava e ler até quase no escuro.
Enquanto a Nina lia a estória de Mandi, eu me lembrava de todas as broncas que levei por dois motivos - que aliás mantenho até hoje- comer lendo e andar descalça.
Que coisa mágica que é a vida.
Muitos livros foram perdidos no caminho, talvez tenham cumprido a sua missão e alimentem outras almas mais perturbadas que a minha, mas não me importo nem sinto saudades.
Eles continuam todos vivos e abertos, bem aqui, dentro de mim.



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