segunda-feira, dezembro 05, 2011

CABELEIRA

Durante toda a minha infância tive problema com meu cabelo.
Meu cabelo não era liso mas também não era cacheado.Quando alguém me perguntava eu só dava de ombros.Como definir um cabelo que, ao secar depois do chuveiro, lembra a juba do leão da montanha?
Minha melhor amiga na época tinha um cabelo liso, louro e ralo.Ou seja, perfeito.
Nunca entendi como ela podia ir com o cabelo molhado pra escola sem a menor preocupação de como ele ficaria quando secasse. E o pior é que ficava lindo de qualquer jeito. Se tem um momento "ai que raiva!' da infância, com certeza foram todos os que a Karen esteve presente com seus lindos e compridos fios louros.

Eu era criativa ao extremo e usava o cabelo preso, com um rabo de lado, no cocoruto, com trança, enfim, de tudo quanto era jeito, menos solto.
Meu maior sonho era ter o cabelo da Farrat Fawcett com aquela franja incrível. Sendo assim, em uma de minhas vindas pra São Paulo, resolvi que finalmente meus problemas com a cabeleira seriam resolvidos, bastava cortar! Não tive dúvidas, cheguei no salão de beleza acompanhada de minha irmã e decretei: " quero o cabelo igual aquela loura das Panteras", e a moça do salão fez um "hãhã" que me deixou um certo receio de que ela não fizesse a menor ideia de quem fosse. Mas arrisquei mesmo assim.
Se cara da minha irmã foi um pouco assustadora quando levantei da cadeira, a minha foi de "quero morrer agora mesmo e de preferência careca pra não assustar ninguém do outro lado".O corte da moda se chamava pigmaleão e se eu, ou a cabeleireira, tivéssemos o menor senso, jamais teríamos concordado com o tal corte.

Quando finalmente cheguei em casa, minha mãe disse que meu cabelo parecia uma vassoura. Desconsiderei e foquei em Farrat Fawcett. No dia seguinte fiz o rotineiro caminho de passar na casa da minha amiga pra irmos juntas á escola e tive a certeza de que meu corte era um desastre. " Nossa, você tá parecendo um daqueles micos cabeludos", ou traduzindo, o que ela queria dizer era que eu estava parecendo um mico leão dourado. Reservo-me o direito de não descrever a minha reação.

Anos se passaram mas nunca me esqueci do efeito pigmaleão.
Também continuei sem entender qual era do meu cabelo.
Um dia vi um vídeo do David Bowie e me identifiquei. Enfim alguém tão doido quanto eu.
Por volta dos dezesseis anos já morando em São Paulo tive os mais variados tipos de amigos, que também usavam os mais variados cortes e cores de cabelo. Resolvi cortar de novo e radicalizei: " corta tudo e deixa só um moicano", a cabeleira desta vez tinha bastante noção, e resolveu de todas as formas me convencer do contrário. Sem sucesso.
Mas ao chegar à escola percebi imediatamente meu sucesso. Todos queriam ser meus amigos. Uau!
Milagrosamente, graças a um corte de cabelo, eu tinha virado unanimidade.

A luta continua, mas conheci o poder da escova e do secador.Que maravilha! Fiz as pazes com a cabeleira.
Eu sou uma apaixonada pelo meu cabelo, que agora já afinou , mas continuo sem entender qual é a dele.
Mas percebi que temos uma parceria, afinal já judiei um bocado do coitado. Já pintei de louro, preto, azul, castanho com luzes, castanho sem luzes e à algum tempo mantenho a ruivice.
Só espero que ele não resolva me abandonar porque não tô a fim de ser uma senhora idosa e careca.
Mas se acontecer, assim como descobri o poder de um secador, hei de conhecer os mistérios das perucas.
Hei de envelhecer, pero calvo, jamás.



Imagem: Reprodução

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