segunda-feira, novembro 28, 2011

SÓ GAROTOS

Eu preciso confessar que nunca me interessei por Patti Smith. Na década de 80 quando ela me foi oficialmente apresentada, sei lá por quem, escolhi Janis Joplin. Não me encantei com seu jeitão masculino e a voz rouca embriagada de Janis me tomou em cheio.
De lá pra cá, a lembrança de Patti sempre revelava apenas a imagem moleque guardada na minha adolescência.
E dessa forma se seguia até que uma matéria publicada em um jornal com indicações e referências literárias me chamou a atenção. Leitora voraz que sou, sempre percorro estas listas para vasculhar no Sebo do bairro e tentar encontrar algo por lá. Tenho o hábito de comprar livros muitas vezes apenas por "medo" de que o tal exemplar seja o único de uma série, ou que eu nunca mais encontre um novo volume.Isso me custa pilhas de livros que lembram a torre Pisa e exemplares que nunca cheguei a ler.

Nesta lista, um cronista cujo nome não tenho a menor ideia de qual seja, indicava o livro Só Garotos de Patti Smith e, justificava sua escolha, dizendo que a autora fazia com que qualquer pessoa se tornasse intima de Nova Iorque, mesmo sem conhecê-la. Pois quem me conhece sabe que sou completamente apaixonada pela Big Apple, e dessa forma resolvi comprar o livro.
O problema era a falta de grana pra comprar um lançamento, algo em torno de R$50,00 associado ao fato de que tenho 5 filhos, sendo 2 deles em curso técnico pago e o terceiro indo pra faculdade, isso sem contar as menininhas terroristas que esticam mais e mais a cada dia.

Apesar de querer muito o livro, logo desisti da ideia.
E aí em uma ocasião que não vou citar qual é, dei de cara com o livro em uma livraria dessas Mega Store e, não titubiei: surrupiei o dito cujo.
Sim, vocês leram certinho. Eu surrupiei o livro.
Eu não sei porque exatamente, afinal de contas dei de cara com um zilhão de livros muuuito mais interessantes, e eu nem era fã de Patti Smith, mas foi uma coisa arrebatadora.
Pensei " esse livro vai ser mais um que não vou ler e ainda vou arder no fogo do inferno", mas algo inexplicável aconteceu.
Comecei a ler e fui tomada por um desejo de continuar mais e mais e mais...Fiquei absorta e de cara matei 50 páginas quase sem fôlego.
Descobri que Patti, assim como eu, era fã de Nina Simone e também surrupiava livros que não podia comprar. Só este fato já serviu pra me conquistar de pronto.

Mas a vida de Patti Smith é uma lição de sobrevivência e certezas incríveis. De infância pobre, criança que adoecia facilmente e amava livros, sentia a vontade de conhecer o mundo e o desejo de ser artista. Com vinte anos foi para Nova Iorque sem um tostão furado e passou fome, noites dormidas em bancos de parques ou qualquer lugar seguro que encontrasse, pediu emprego de qualquer coisa que lhe garantisse um pedaço de pão para continuar sonhando,  feliz e livre. Conheceu Robert Mapplethorpe, um fotógrafo que mudaria sua vida, e juntos cuidaram um do outro garantindo a sobrevivência de ambos.
Ainda não terminei o livro, mas contando pra meu marido como estava entusiasmada com essa mulher incrível, tive outra surpresa.
Meu marido começou a me mostrar a quantidade de sucessos de Patti que foram gravados por grandes como Nirvana, Rolling Stones, The Doors, Jimmy Hendrix, U2 e tantos outros. Músicas que eu já tinha cantado e sequer imaginava serem de Patti.
Muitos beberam de sua água e definiram os riffs que identificariam suas canções.
Em um dos parágrafos Partti diz que ficou transformada e comovida pela revelação de que seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.Isso fez com que ela questionasse sua real vocação: teria ela estofo para ser uma artista?
Querida Patti, deixe-me dizer o seguinte: muitos transportam para a arte a realidade que vivemos e por isso nelas nos espelhamos. Mas você fez o impensável, construiu pontes para que muitos criassem sua própria identidade e definiu estilos.
A respeito do título conta Patti que, em uma tarde estava ela e Robert com suas surradas roupas em um parque de Nova Iorque, duros e famintos, quando um casal de turistas quis fotografá-los. A mulher dizia " tire uma foto, são artistas!!", ao que o marido após uma breve analisada a respeito do colete de pele de carneiro e colar de miçangas que Robert adorava usar, guardou a máquina fotográfica e decretou " são só garotos!".
Se ele soubesse...
Me tornei fã.



Imagem: Reprodução

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