sábado, setembro 17, 2011

CANTA COMIGO?

Eu não imaginava fazer parte de uma coisa chamada rede social, e tampouco que teria que contar uma boa estória em 140 caracteres porque ninguém teria tempo para ler nada mais do que isso.
Eu também não imaginava que além de mim, zilhões de pessoas iriam falar virtualmente sozinhas em 140 caracteres.
Também nunca pensei que ao utilizar a palavra "festa" eu seria considerada brega e antiquada, já que na era das redes sociais você não vai a festas, faz "networking".
Ás vezes acho que estou ficando chata e repetitiva , mas percebi que tamanho fenômeno também traz efeitos colaterais: um bando de gente alienada com cara e papo bobo.
Eu sou antiquada(do tipo que acredita em velharias e em Deus Todo-Poderoso), e por isso mesmo me alegro quando vejo heróis da resistência que se recusam a aderir a tais adereços. Tal é o caso de uma senhorinha que teima em ser uma espécie de "vanguarda da discoteca". Sim senhores, discoteca.
Todos os dias lá está ela: debruçada na janela, batom vermelho na boca e o gogó que acompanha desavergonhadamente os hits de Roberto Carlos a Zezé de Camargo, passando por outros de quem nunca ouvi falar.
Na primeira vez que cruzei debaixo da sua janela, tomei um susto ao ouvir aquela voz desafinada entoando  "eu te amuuuu, todo dia, toda hora..." e sei lá mais o quê. Olhei para o alto e dei de cara com aquela velhinha balançando os ombrinhos e cantando alto a música de um sertanejo famoso. Dentro da minha limitada percepção pensei " - tadinha, deve ser maluca!" E disfarçando, olhei pro lado oposto da calçada e segui meu caminho.
Dias depois, lá estou de novo cruzando a mesma calçada quando ouço aquela voz desafinada familiar cantando " meu pequenoo cachoeeeiro, vivo só pensando em tiiii", e imediatamente, feito maldição, o pensamento "- xii, é a velhinha maluca!" e antes de olhar pra cima e vê-la na janela tamborilando pra lá e pra cá, percebi que, apesar de ser umas 15 horas, todo mundo que atravessava a rua teimava em fazer de conta que a tal senhorinha não existia. Ninguém olhava. E olha que ela cantava a plenos pulmões!
Minha abissal ignorância me fez perceber que as únicas pessoas desconfortáveis éramos nós que dizíamos ser "normais", porque ela cantava e dançava e não estava nem aí pra gente.
Comecei a admirá-la.
Pensa que é pra qualquer um cantar na janela?
Talvez olhos mais apressados ainda teimem em considerá-la maluca, mas eu a considero uma vanguardista.
Essa senhorinha, cujo nome desconheço, conseguiu o que anos de análise e Rivotril muitas vezes não conseguem fazer por nós: descobriu o que traz a felicidade.
No caso dela: uma janela, um batom vermelho e uma música alta pra cantar junto (de preferência pra balançar os ombrinhos).
É uma sábia.
Quem dera um dia eu descubra também.

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