quarta-feira, abril 13, 2011

SIMPLESMENTE ....AVÓ

Numa manhã cinza a Gabriella resolve que, para ir até a casa da minha mãe vai usar seu coturno preto.E como coturno sozinho não faz verão, aproveita para colocar uma camiseta moderna - e por moderna entende-se de alguma banda de rock - sua calça jeans e algumas bijus na tentativa senil de parecer "mocinha".
Minha mãe olha pra ela e diz "você não tem outro sapato?" e depois da beijoca estalada de sua neta preferida - ela nega até a morte- muda de assunto e esquece o coturno. Já começa a oferecer a massa sensacional que ela fez especialmente para ela, ou os biscoitos que passou horas assando para ser entregue as suas demais netas preferidas, Nina de seis anos e Bia de oito.
Ao ver essa cena me dou conta de que os anos passaram e que minha mãe deixou de ser mãe para ser simplesmente...avó.
Como uma legítima avó ela manda costurar pequenos vestidinhos floridos para a Nina e para a Bia, redescobre o prazer de fazer biscoitos, passa horas tentando enxergar o buraco da agulha de sua velha máquina para fazer "uma colchinha para as meninas", e nem de longe lembra aquela mama que gritava e gesticulava palavrões a cada cinco minutos.
Toda a minha infância resume-se a coisas que minha mama me obrigava a fazer, e sem admitir nunca, jamais, ser contrariada.
Eu só vestia, calçava e principalmente, cortava o cabelo do jeito que "ela" determinava.Na hora da comida, não existia "não gosto disso" ou "posso fazer um miojo?", era comer ou morrer.Eu era inteligente e comia.
O fato é que, minha mãe, nem de longe lembra a pessoa mandona, autoritária e boca suja que outrora foi.
Hoje ela é só uma velhinha que tudo permite, tudo aceita, tudo acha graça e tudo concede.Principalmente aos netos.Hoje, minha mãe, é só uma avó.
Essa velhinha é a paixão de seus cinco netos - meus filhos - e eles vivem a paparicala.
Não consigo imaginar nossa rotina sem essa senhorinha de 81 anos, apesar de todos os seus pronunciamentos fatídicos de que "esse é meu último ano", ela continua mais firme e mais forte que todos nós.
Esqueci de dizer que minha mãe adora um drama.Vira e mexe inventa uma doença fatal fulminante, e isso sempre surge quando por qualquer motivo, alguem não a visita no final de semana." Eu não sei o que ainda estou fazendo nesse mundo..", e aí lá vai a Gabriella dizer que isso é um despropósito, que a Nonna morreu com 92 anos e que se for o caso, abandona o cursinho pra morar com a avó.Nesse momento, por uma pequena fraçao de segundos, aquela mama mandona ressurge e dispara " não senhora, não gosto de ninguem me enchendo o saco..", e depois abre a carteirinha, pega um dinheiro e enfia dentro da camiseta da Gaby dizendo com voz doce (será que ela é uma artista?) " toma filha, é pra pagar o metrô pro cursinho"...
Talvez eu também me torne uma senhora parecida com a minha mãe, afinal as filhas são espelhos das mães, mas não sei se conseguirei ter a mesma força de quem já suportou todas as perdas possíveis para um ser humano, que dirá para uma mãe, que perdeu um filho e o marido no mesmo ano, e ainda assim ser doce e fazer biscoitinhos e vestidinhos floridos.
Quem sabe se eu me esforçar muito, não desaponte essa mulher que, do alto de seus cabelos brancos soube se transformar na mais doce avó que pode existir.
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