quinta-feira, fevereiro 10, 2011

EU, EU MESMA E MAIS ALGUEM..

Existe um recurso muito bacana que gosto de usar quando tenho insônia: eu invento mil lugares pra visitar e vou me imaginando neles.Na maioria das vezes dá certo e eu ando tanto que acabo ficando com sono de verdade e durmo.
Eu ando mesmo! E realmente fico cansada!Dá pra acreditar?
Eu sempre fui muito imaginativa.
Quando criança, me imaginava a poderosa Isis e fazia caras e bocas enquanto segurava um colar fajuto entre as mãos e me via voando pelos céus da baixada santista.
Também já fui a irmã dos super gêmeos, só que sem o irmão, e fazia mil peripécias encostando o anel de doce da mão direita no da esquerda, os vizinhos do meu prédio que o digam..
Em uma fase mais tecnológica fui a mulher biônica e decorei com maestria a cara que ela fazia quando dizia " oh my God", e aí era um tal de oh my God pra cá e oh my God pra lá, até o dia em que resolvi dar um salto biônico da caixa d'água e por pouco não quebrei as duas pernas.
O mais interessante é que eu REALMENTE acreditava em meus personagens, ao ponto de fingir que eu estava disfarçada de gente comum só para me infiltrar.
Coisa de agente secreto.
Quando eu jogava queimada na rua tinha o maior cuidado ao lançar a bola para não mandar minha amiga para o espaço sideral, afinal de contas EU TINHA superpoderes.Eles me chamavam de molenga, mas nem desconfiavam da minha super força.Melhor assim, porque dessa forma, acreditava eu, meu segredo estava guardado.
Quando eu tinha doze anos resolvi que ser agente secreto ou super herói não estava com nada, o legal era ser artista de televisão.
Resolvi que era uma estrela da novela das oito e vivia falando sozinha por tudo que era canto.Quer dizer, sozinha não, com meus companheiros de elenco, o problema é que eles eram todos invisíveis e minha mãe muitas vezes achou que tinha uma filha paranormal em casa.Posteriormente concluiu que eu era só meio maluca mesmo, e finalmente que eu era idiota.
Mas antes da conclusão de que eu era idiota, meu pai me encontrou com um cigarro apagado entre os dedos rodopinado pela sala da casa de minha tia fazendo poses e biquinhos e resolveu que precisava dar um basta nesta situação: correu atras de mim por toda a casa dizendo que se me encontrasse com um cigarro de novo eu iria conhecer o além de verdade.
Daquele dia em diante resolvi que ser artista era muito sacal e que o mundo não estava preparado para o meu talento.
Meti na cabeça que seria arqueóloga e desvendaria os mistérios do Egito.Fiz meu pai me comprar uma enciclopédia gigante apenas por conta de dois livros que vinham junto: um de arqueologia e outro de geologia.
Passava horas escavando as pirâmides e gritando para os membros da minha equipe " vamos lá, estamos perto da maior descoberta do século, não desistam.." e para o completo desespero da minha mãe, um dia subi no telhado de onde morávamos para avistar melhor o horizonte do deserto e quase caí de lá, quando desci tomei uma surra inesquecível.
Deste dia em diante deixei de ser uma escavadora.
Um dia quando visitei minha tia, descobri que tinha um concunhado(sei lá o que é isso..) que pensava ser o Aquaman.
Ele não sabia nadar, mas afinal era o Aquaman e que importava esse detalhe? Mirou na parte funda da piscina e se atirou lá dentro tendo o cuidado de gritar antes " AQUAMAN!".
Nem preciso dizer que ele só não morreu afogado porque metade da família pulou dentro da piscina pra tirar ele de lá.
Fiquei duplamente feliz: primeiro porque ele não morreu afogado, e segundo porque descobri que eu não era a única idiota da família.
A questão é que na verdade EU ERA a única idiota da família porque ele, soube mais tarde, tinha Down.
Ainda hoje, as vezes, me pego falando sozinha, criando um diálogo que eu imagino irá acontecer mais tarde.Então vou inventando as perguntas e imaginando quais serão as respostas.Chego ao absurdo de discutir comigo mesma: " você não vai poder tirar férias em Dezembro", " eu vou tirar férias quando eu quiser", " não você não vai, quem manda aqui sou eu", " então eu me demito", " nãao por favor, não consiguiremos sem você..."
Sim, eu sei que parece surreal, mas acreditem, eu já fiz isso.
O pior é quando seus filhos te flagram falando sozinha, aí amiga, neste momento vem a tona uma veia artística fantástica: " mãe, tá falando sozinha??", " Nãooo, tô limpando aqui e fazendo umas contas - três pacotes de açúcar, dois de arroz..."
Uma vez idiota, sempre idiota diram alguns, mas eu chamo isso de talento para improvisar.
Uma vez imaginei que estava no programa do Faustão naquele quadro em que você está no palco e um monte de gente fica dando depoimentos sobre você:
" nossa , eu nem sei o que dizer sobre a Val, ela é muuito maravilhosa, crescemos juntas e ela sempre foi super talentosa, tipo um fenômeno sabe?" Val te amo" corta pra mim no palco enxugando as lágrimas " gente que surpresa boa, faz quarenta anos que eu não vejo essa pessoa.."
Sem comentários.
Eu estou desenvolvendo a tese de que loucura é genética, porque tenho um filho que já foi o Darth Vader, mestre Yoda e Luke Skywalker.Quase que simultaneamente.
As vezes ele também é o Samurai Jack, mas prefere mesmo é ser o Luke.
Mas como disse o mestre de Yoga Hermógenes:" Deus me livre de ser normal".
Amém.

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