sexta-feira, julho 02, 2010

Um dia de fúria



Olá meninos e meninas.
Era uma tarde como outra qualquer, e eu estava feliz porque ia poder passar o final da tarde com o meu marido.
Estávamos famintos (eu, na verdade), e graças a minha insistência infantil fomos até aquela famosa rede de lanchonete de fast food. A fila era grande, mas aguardamos com toda a paciência possível. Essa loja especificamente fica dentro de um Shopping Center na zona leste e possui uma área exclusiva para os consumidores degustarem os seus famosos lanchinhos. Acontece que quando chegamos na tal área reservada tomamos um susto: várias pessoas com seus lanches na mão olhando para o povo que comia sentado em suas respectivas mesas. Parecia uma zona de guerra. Como corajosos soldados nos juntamos a maioria que estava aguardando em pé.
Meu marido de repente disparou: "Pô, tem várias pessoas que já acabaram de comer e estão batendo papo!" Realmente. Um olhar mais apurado constatou o óbvio: Havia muitas pessoas em pé enquanto outras tantas conversavam alegremente de barriga cheia.
Resolvi, educadamente, conversar com um garoto que limpava uma das lixeiras do local e esclareci a situação. O tal funcionário também achou um absurdo, retirou-se e retornou acompanhado da gerente. Neste momento, meu marido já estava literalmente de saco cheio(perdoem a expressão chula), e não deu a menor chance para a gerente do local se explicar. Exigiu que ela arrumasse um lugar para degustarmos o famoso lanchinho, exigiu que ela conversasse com as pessoas que estavam sentadas batendo papo, exigiu outras centenas de coisas das quais não me lembro, e por último lembrou à boquiaberta gerente que também éramos consumidores. Neste momento me chamou a atenção um casal, especificamente. Percebemos que eles estavam completamente inertes a situação que acontecia a volta e conversavam animadamente. Algumas moças que junto as demais pessoas, assim como nós, também esperavam por um lugar a sombra, resolveram sentar na mesa aonde o casal estava, e juntando mais 3 cadeiras lá se ajeitaram e passaram a comer.
Enquanto isso, a coitada da gerente olhava para mim pedindo socorro frente as exigências de consumidor do meu marido. Foi salva por 02 senhoras que fizeram sinal para que nos sentássemos em seus lugares pois já estavam de saída. Segurei nas mãos da funcionária e disse que estava tudo bem, já tínhamos encontrado um lugar e me desculpei. Meu marido quase me fuzilou com os olhos dizendo que era absurdo aquela situação toda, várias pessoas em pé com lanche na mão e os funcionários da famosa lanchonete usando de diplomacia barata. Calmamente expliquei ao meu esposo que não adiantava ficar estressado com isso e que precisávamos ter paciência. Além disso, falar alto não resolveria coisa alguma. Meu marido nada disse e mordeu o seu lanche desejando que fosse minha jugular.
Passados alguns minutos continuei observando o casal que ainda permanecia no mesmo lugar. Também passei a observar que muitas pessoas, senhoras inclusive, estavam reclamando e ainda permaneciam em pé.
Neste momento me levantei e fui até o meio do salão. Pude perceber que meu marido me olhou espantado. Segurei uma senhora pelo braço e falando alto ( gritando seria a expressão correta), encaminhei a mesma para a mesa aonde estava sentado (ainda) o tal casal. A senhora chamou seu netinho, agradeceu e sentou-se. De repente, alguma entidade política baixou em mim. Pensei em Ulisses Guimares, sei lá. O fato é que comecei a gesticular no meio do local e a discursar sobre falta de educação, cidadania, e fiz pior. Voltei na mesa aonde estava o tal jovem casal e disse que os dois eram o exemplo perfeito de desrespeito ao direito dos outros e incitei as pessoas a sentarem na mesa de todo mundo que já tinha acabado de comer e estava colocando a conversa em dia. A jovem da já famosa mesa, ainda tentou um diálogo qualquer comigo soltando um " minha querida.... " e eu enfurecida: " eu NÃO sou sua querida!" Terminado o glorioso discurso, voltei até a minha mesa, sentei e conclui: " pronto, falei!
Meu marido, estupefato, me olhou sem entender nada. E aí, o tal casal levantou-se e descobriu-se que eram cegos. Algumas meninas adolescentes que tinham acabado de chegar, tomaram as dores do casal e pediam para que os mesmos voltassem a sentar novamente. Neste momento percebi que Ulisses Guimaraes ainda habitava em meu corpo e disse que era muito engraçado a pessoas lutarem e exigirem tanto ser tratadas de maneira igual e respeitosa e em momentos como este, usarem as suas diferenças como desculpa para seus atos idiotas. Ainda disse que por ser cegos eles não tinham o direito de desrespeitar as outras pessoas e que não eram especiais por isso. Meu marido se irritou com as adolescentes e iniciou um pequeno bate boca estranho de gestos e sinais. Já havíamos terminado nosso lanche e tratamos de nos retirar do local. Quando saíamos do Shopping olhamos um para o outro e começamos a rir da situação toda. Lembramos do filme do Michael Douglas em " Um dia de fúria", quando ele enlouquece dentro de uma lanchonete famosa ao pedir o breackfast faltando 02 minutos para o final do horário do café e ouvir as palavras repetitivas do gerente" sinto muito, agora só estamos servindo o almoço".
Quando chegamos em casa e contamos o acontecido, nossos filhos, que já são adolescentes ficaram estarrecidos.
Ouvimos vários " mas eles eram cegos!!", e " mãe você ficou maluca??"
Mas meninos e meninas, o que a cegueira tem a ver com falta de educação? Se apropriar de uma diferença para obter favorecimento de qualquer tipo, na minha opinião é inaceitável. Aliás sou contra qualquer tipo de favorecimento, sejam as tais bolsas família, bolsa gás, bolsa blá blá blá, cotas para negros, cotas para pobres, eu não concordo com nada disso. Eu sei que paguei um King Kong no fast food junto com meu marido, mas quer saber? Depois dá uma sensação tão boa...Sabe quantas vezes eu tive vontade de abrir os braços e reclamar alto para todo mundo ouvir sobre desigualdades? Inúmeras. Agora tomei gosto.
Vou virar uma vuvuzela andante e como diria Ulisses : "Só um palpite: dando tudo errado: grite".









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